Uma grave denúncia de suposto esquema de “rachadinha” e abandono de posto no Corpo de Bombeiros de Manacapuru, município localizado a quase 100 quilômetros de Manaus, no interior do Amazonas, acendeu o alerta das autoridades. As corregedorias da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) e do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) foram acionadas para investigar as alegações que apontam para uma série de irregularidades que podem comprometer a segurança da população e a credibilidade da corporação.
A denúncia, à qual a Rede Amazônica teve acesso, detalha que bombeiros militares escalados para atuar no Balneário do Miriti, principal ponto turístico público da cidade, estariam deixando seus postos antes do término do turno. Mais alarmante, parte do pagamento recebido por esses militares seria supostamente repassada ao comando do batalhão, configurando o que popularmente é conhecido como “rachadinha”, um esquema de desvio de verbas públicas.
Ausência de militares no Balneário do Miriti gera preocupação
O Balneário do Miriti, conhecido por atrair banhistas frequentemente, é um local de grande importância para o lazer e turismo local. No entanto, a segurança dos frequentadores é uma preocupação constante, especialmente devido à presença de placas que alertam para o risco de ataques de piranhas. A presença de bombeiros militares é, portanto, crucial para garantir a integridade dos visitantes e responder a emergências.
Moradores da região, que preferiram não se identificar por receio de represálias, relatam que a presença dos bombeiros no balneário é rara, limitando-se, muitas vezes, a aparições rápidas nos fins de semana. “Está sempre vazio. Eles vêm pela parte da manhã… Final de semana. Vêm, batem uma foto e vão embora”, afirmou um dos moradores, evidenciando a percepção de descaso com a segurança pública.
Vídeos obtidos pela reportagem reforçam as reclamações, mostrando a indignação de pessoas que se depararam com a ausência dos militares em momentos críticos. Em uma das gravações, um cidadão desabafa: “Eu estou aqui no Miriti, já é 12h30 quase, vai dar quase 13h e não tem um bombeiro aqui. Ainda agora teve uma situação que a gente teve que se virar ‘nos trinta’, não tem um bombeiro aqui para salvar ninguém se acontecer alguma coisa.” A falta de fiscalização e a percepção de abandono do posto geram um clima de insegurança e desconfiança na comunidade.
Detalhes do esquema: escalas falsas e repasse de pagamentos
O cerne da denúncia encaminhada às corregedorias reside na alegação de que os bombeiros eram oficialmente escalados para o Balneário do Miriti, mas não cumpriam integralmente o período de serviço. Apesar disso, recebiam o pagamento integral pelas horas supostamente trabalhadas. O mais grave é a acusação de que parte desse valor deveria ser devolvida ao comando do batalhão, um modus operandi típico de esquemas de “rachadinha”.
Um áudio anexado à denúncia, cuja voz seria de uma tenente não localizada pela Rede Amazônica, parece corroborar a suspeita. Na gravação, a pessoa menciona a necessidade de pagar para “comprar alguma coisa” ou para uma “caixinha”, indicando um fundo coletivo ou desvio. “É para pagar, para comprar alguma coisa, não sei se é notebook, alguma coisa. É para a caixinha. Entendeu? Por isso que ele só pediu o nome de alguém, porque, quando receber o dinheiro… o dinheiro é do notebook, é da caixinha”, diz a voz no áudio, sugerindo um mecanismo de arrecadação ilícita.
O documento aponta que o esquema teria sido orquestrado pelo comando do batalhão de Manacapuru, com foco no período entre janeiro e abril deste ano. O tenente Emerson de Oliveira Silva, comandante da unidade, é citado como o responsável pela elaboração das escalas falsas de trabalho. A denúncia ainda detalha que os bombeiros envolvidos “vão só bater a foto no local do serviço e logo depois vão embora, adulterando data e hora das fotos georreferenciadas, por meio das configurações dos celulares”, uma prática que visaria mascarar a ausência e simular a presença no posto.
Investigações se estendem a furto de lancha e doação de madeira
As irregularidades denunciadas não se limitam apenas ao esquema de “rachadinha” e abandono de posto. A denúncia também estabelece uma conexão entre a ausência de bombeiros no balneário e o furto de uma lancha pertencente à corporação, ocorrido em 14 de março. O boletim de ocorrência que registra o desaparecimento da embarcação foi acessado pela reportagem, mas o delegado responsável pelo caso preferiu não se pronunciar, mantendo o sigilo das investigações.
Outro ponto que merece atenção e está sob investigação é o destino de doações de madeira feitas pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) ao Corpo de Bombeiros de Manacapuru. A denúncia levanta a suspeita de que o material doado, com comprovantes emitidos em junho e agosto de 2024 e fotografias da entrega, teria desaparecido. A apuração desses fatos é crucial para esclarecer se houve má gestão ou desvio de recursos e bens públicos, ampliando o escopo das investigações sobre a conduta no batalhão.
Diante da gravidade das acusações, a comunidade de Manacapuru clama por respostas e providências. Um morador, em entrevista, expressou a indignação geral: “O governo, o governador, tinha que tomar uma atitude, porque isso não pode acontecer aqui no nosso município.” A expectativa é que as corregedorias atuem com rigor para apurar os fatos, responsabilizar os envolvidos e restabelecer a confiança da população na instituição. A transparência e a ética são pilares fundamentais para qualquer órgão público, e a elucidação dessas denúncias é essencial para a segurança e o bem-estar dos cidadãos.
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Fonte: g1.globo.com