PUBLICIDADE

PIX brasileiro: o desafio geopolítico ao controle financeiro dos Estados Unidos

PIX brasileiro: o desafio geopolítico ao controle financeiro dos Estados Unidos
© Bruno Peres/Agência Brasil

O sistema de pagamentos instantâneos Pix, uma inovação brasileira que revolucionou as transações financeiras no país, emergiu como um ponto de atrito nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Especialistas em economia e relações internacionais apontam que o modelo do Pix é visto por Washington como um desafio direto ao seu controle sobre a infraestrutura de pagamentos eletrônicos global, motivando, entre outros fatores, a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros.

A decisão do governo de Donald Trump de incluir o Pix entre as justificativas para um tarifaço de 25% contra o Brasil, conforme apurado pela Agência Brasil, transcende a mera concorrência econômica com gigantes como Visa, MasterCard ou Whatsapp Pay. A questão, segundo análises, é fundamentalmente geopolítica, refletindo uma preocupação dos EUA em manter sua hegemonia no sistema financeiro internacional.

Pix como instrumento de soberania econômica

O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), Ronaldo Carmona, enfatiza que o Pix se consolidou como um poderoso instrumento de poder para o Brasil. Ao fortalecer a autonomia e a soberania econômica e financeira do país, o sistema permite que o Brasil promova o comércio exterior bilateral com outras nações, utilizando moedas nacionais e, assim, reduzindo a dependência da arbitragem e da senhoriagem do dólar.

Essa capacidade de operar fora da influência direta do dólar é um fator crucial. Carmona destaca ainda que o Banco Central brasileiro tem estabelecido acordos de cooperação técnica com 47 países para auxiliar na implementação de sistemas de pagamentos semelhantes ao Pix. Essa expansão global do modelo brasileiro pode, a longo prazo, fragilizar ainda mais o controle de Washington sobre as transações financeiras em diversas partes do mundo, alterando a dinâmica do poder econômico.

A perda de controle financeiro dos EUA

Para o professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maicon Cláudio da Silva, o ataque ao Pix está diretamente ligado à percepção de perda de poder e controle dos EUA sobre o sistema financeiro brasileiro. Ele argumenta que medidas como o tarifaço evidenciam a relutância americana em ceder a influência que detém sobre grande parte do sistema financeiro mundial, citando a China como exemplo de país que desenvolveu sistemas próprios para garantir maior soberania e autonomia.

Paradoxalmente, Silva lembra que o Pix impulsionou a bancarização da população brasileira, integrando mais pessoas ao sistema financeiro formal. Movimentos econômicos que antes se limitavam ao dinheiro em espécie passaram a ocorrer via Pix, facilitando o acesso a contas bancárias e, consequentemente, a cartões de crédito. Em 2025, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões, um crescimento de 10,1%, impulsionado pela expansão do Pix, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Isso sugere que, em alguns aspectos, o Pix também gerou ganhos indiretos para empresas americanas de cartões.

Sanções econômicas e a busca por autonomia

Sistemas de pagamentos nacionais, como o Pix, representam um obstáculo significativo à aplicação de sanções econômicas por parte dos EUA contra instituições e indivíduos, ao contrário do que ocorre com os sistemas americanos. Ronaldo Carmona explica que plataformas com sede nos Estados Unidos geralmente cumprem todas as sanções impostas pela Casa Branca, o que lhes confere uma ferramenta de projeção de poder.

Maicon Cláudio da Silva reforça essa análise ao mencionar casos como as sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o bloqueio econômico a Cuba. Ele destaca que, ao controlar os meios de pagamento, os EUA podem, a qualquer momento, impor sanções econômicas a países ou indivíduos. O bloqueio a Cuba, por exemplo, levou a Visa e a Mastercard a cessarem suas operações na ilha, ilustrando a capacidade de Washington de impactar a economia de nações soberanas por meio de bloqueios financeiros.

Apesar das perdas econômicas imediatas para empresas americanas, dado o superávit comercial dos EUA com o Brasil, o tarifaço é visto como uma política focada em exercer poder geopolítico. A prioridade, nesse contexto, é pressionar países a se submeterem à influência americana, mesmo que isso acarrete desvantagens econômicas de curto prazo para os próprios Estados Unidos.

Movimento global por soberania financeira

A preocupação com a supremacia financeira dos EUA não é exclusiva do Brasil. A revista inglesa The Economist, em artigo publicado antes do anúncio do tarifaço, já apontava que o Pix brasileiro, ao lado de iniciativas da União Europeia (UE), ameaça a hegemonia financeira americana. A ascensão de sistemas de pagamentos “soberanos”, especialmente na Europa – um mercado crucial para Visa e Mastercard –, pode corroer as altas margens operacionais dessas empresas.

A União Europeia, por exemplo, anunciou o Euro Digital, um sistema de pagamentos eletrônicos semelhante ao Pix, de acesso gratuito e público, com lançamento do projeto-piloto previsto para 2027. A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, declarou abertamente que o objetivo é reduzir a dependência de sistemas estrangeiros. “Dependemos predominantemente das redes americanas, mas também, por vezes, das chinesas, para organizar os pagamentos. Precisamos de uma solução europeia porque queremos ser soberanos internamente”, afirmou à Euronews.

O Pix, portanto, não é apenas um avanço tecnológico, mas um símbolo da busca por maior autonomia e soberania em um cenário geopolítico complexo. Sua ascensão e a reação dos Estados Unidos refletem uma reconfiguração do poder financeiro global, onde nações buscam maior controle sobre suas próprias transações e infraestruturas.

Para se manter atualizado sobre os desdobramentos dessa e de outras notícias que impactam o Brasil e o mundo, continue acompanhando O Amazonas. Nosso compromisso é trazer informação relevante, contextualizada e aprofundada, garantindo que você esteja sempre bem informado sobre os temas que realmente importam.

Leia mais

PUBLICIDADE