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Iniciativa mapeia potencial do Nordeste para impulsionar economia de baixo carbono

Iniciativa mapeia potencial do Nordeste para impulsionar economia de baixo carbono
© Ari Versiani/PAC

O Nordeste brasileiro, uma região de contrastes marcantes entre desafios climáticos e um vasto potencial natural, está no centro de um projeto ambicioso que busca traçar os caminhos para uma economia de baixo carbono. A iniciativa, batizada de Futuros Verdes no Nordeste, é uma colaboração entre o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e o Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife (CESAR), e tem como objetivo principal mapear as oportunidades econômicas, setores produtivos, capacidades e competências que podem acelerar a transição da região para um modelo mais sustentável.

A proposta fundamental do projeto é ir além do reconhecimento superficial do potencial, buscando uma compreensão aprofundada das particularidades de cada um dos nove estados nordestinos. Para isso, a equipe está engajada em um processo de escuta ativa, dialogando com especialistas e representantes do setor produtivo. O conhecimento adquirido será transformado em orientações estratégicas, personalizadas para a diversidade dos territórios, e também servirá para identificar as necessidades de formação e capacitação profissional diante das novas demandas impostas pelas mudanças climáticas e pela evolução dos modelos produtivos.

Mapeando o potencial e os desafios da transição

A transição para uma economia de baixo carbono não é um processo automático, como ressalta Diogo Araújo, biólogo e analista do CESAR, um dos coordenadores do projeto. As oportunidades não se distribuem de forma igualitária nem se materializam sem um esforço direcionado. “As oportunidades não se distribuem automaticamente e também não vai ter uma transformação de forma tão natural e tão automática […]. Então é por isso que o Futuros Verdes no Nordeste nasce. Para compreender essa complexidade”, explica Araújo, sublinhando a importância de uma abordagem estratégica e contextualizada.

O projeto reconhece que o Nordeste é, ao mesmo tempo, palco de alguns dos mais urgentes desafios ambientais e um celeiro de potencialidades para o desenvolvimento de alternativas produtivas mais sustentáveis. Essa dualidade exige um olhar atento e um planejamento robusto para que a região possa não apenas mitigar os impactos das mudanças climáticas, mas também se posicionar como líder na nova economia verde.

O Nordeste entre vulnerabilidade climática e vocação sustentável

A vulnerabilidade do Nordeste às mudanças climáticas é um fato inegável. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a Caatinga, bioma exclusivo da região, figura entre os mais ameaçados pela desertificação globalmente. Dados do Mapbiomas de 2025 indicam que três dos cinco estados com maior desmatamento no Brasil – Maranhão, Piauí e Bahia – estão no Nordeste. Além disso, a Climate Central aponta que quatro das sete cidades brasileiras mais ameaçadas pela elevação do nível do mar – Recife, São Luís, Fortaleza e Salvador – também se localizam na região, evidenciando a urgência de ações de adaptação e mitigação.

Contudo, o Nordeste também se destaca por sua impressionante vocação para a sustentabilidade. A região é responsável por 92% de toda a energia eólica produzida no país e abriga cinco das dez maiores usinas solares do Brasil. O turismo, outra importante fonte de recursos, também oferece oportunidades para o desenvolvimento de práticas mais ecológicas e de baixo impacto. Essas potencialidades, se bem exploradas, podem transformar a região em um polo de inovação e desenvolvimento verde.

Da potencialidade ao desenvolvimento: a complexidade da implementação

Para Mário Cardoso, gerente de Recursos Naturais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as oportunidades no Nordeste vão além das energias renováveis, abrangendo a bioeconomia, a biodiversidade da Caatinga, a biomassa e a produção de etanol. No entanto, ele pondera que transformar esse potencial em desenvolvimento real é uma questão complexa. “Você tem potencialidade na bioeconomia, na biodiversidade da caatinga, na questão de biomassa e energia renovável, tanto com etanol quanto energia solar, as energias renováveis, solar e eólica, tudo isso você tem potencialidade”, lista Cardoso. “Agora, como transformar essa potencialidade em desenvolvimento?”

A resposta, segundo o especialista, reside na articulação de diversos fatores, como a cadeia de produção, a demanda do setor produtivo, o potencial de mercado, a viabilidade técnica e, crucialmente, a capacidade de implementação. “Tem locais que têm vocação para a produção de energia eólica? Tem. Mas ele também depende da linha de transmissão. Potencial, por si só, não gera desenvolvimento. Tem toda uma estratégia por trás, uma condição, uma infraestrutura, uma regulação, tudo o que suporte esse potencial. Não tem resposta simples, não tem solução de prateleira”, enfatiza Cardoso, destacando a necessidade de um planejamento integrado e de longo prazo.

Formação profissional: o pilar para os empregos verdes

A capacidade de implementar essas estratégias está intrinsecamente ligada à formação de profissionais habilitados para as novas demandas da economia verde. Nicolis Amaral, do Instituto Clima e Sociedade (iCS), ressalta a urgência de ajustar a formação profissional aos desafios impostos pelas mudanças climáticas. “As profissões começam a se transformar por demanda”, explica Amaral, que se formou em engenharia química com foco em petróleo e precisou se especializar em descarbonização por meio de cursos adicionais, ilustrando a necessidade de uma adaptação contínua.

A engenheira de descarbonização defende que a demanda por empregos verdes impulsionará uma transformação contínua na qualificação profissional. “Tudo que é demandado é a transformação e o emprego verde vai exigir uma transformação contínua. Tem demanda, tem mercado, tem projeto, tem investimento, junto vem empregabilidade”, afirma. Essa perspectiva reforça a importância do mapeamento do Futuros Verdes no Nordeste, que busca identificar as lacunas e necessidades de capacitação para construir uma força de trabalho apta a impulsionar a transição.

Mário Cardoso alerta para a necessidade de agir com rapidez, pois empresas que não adotam processos sustentáveis correm o risco de perder competitividade em um mercado global cada vez mais exigente, citando as regulamentações ambientais de blocos como a União Europeia. O grande desafio, ele conclui, é evitar que a degradação ambiental anule as oportunidades antes mesmo que elas possam se concretizar em cadeias produtivas. “Quando a gente trata da bioeconomia, muitas vezes o desmatamento vem antes e acaba com tudo. A gente tem que correr. Tem que começar a pensar de uma maneira mais pragmática, porque o mundo está andando muito depressa”, finaliza, alertando para o risco de o Brasil ter que importar produtos que poderia produzir, como o açaí, se não souber transformar seu potencial em valor agregado.

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