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Golpes digitais atingem milhões de brasileiros e expõem fragilidades na proteção de dados

Golpes digitais atingem milhões de brasileiros e expõem fragilidades na proteção de dados
© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Um cenário preocupante emerge no Brasil, onde a digitalização da vida cotidiana é acompanhada por uma escalada nas tentativas de golpes online. Quase um terço dos usuários de internet no país, totalizando cerca de 45 milhões de pessoas com 16 anos ou mais, relataram ter sido alvo de investidas criminosas que utilizam dados pessoais. Desses, um quinto, ou seja, 20%, confirmou ter sido vítima efetiva desses crimes, sofrendo prejuízos que vão além do financeiro.

Os dados alarmantes foram revelados pela terceira edição da pesquisa Privacidade e proteção de dados pessoais: perspectivas de indivíduos, empresas e organizações públicas no Brasil. O estudo, apresentado nesta segunda-feira (31) no 17° Seminário de Proteção à Privacidade e aos Dados Pessoais, em São Paulo, é uma iniciativa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), braço do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

A Escalada dos Golpes Digitais e Suas Vias de Ataque

A pesquisa, que ouviu 2,5 mil respondentes em dezembro de 2025, pela primeira vez investigou diretamente se os brasileiros identificam e são vítimas de golpes pela internet. Winston Oyadomari, um dos coordenadores do estudo, destacou a dificuldade em abordar o tema, dada a vergonha e o abalo emocional que as vítimas frequentemente sentem. No entanto, a apuração revela um panorama claro das principais portas de entrada para esses crimes.

Os aplicativos de mensagem se consolidam como a principal via de abordagem, respondendo por 84% dos casos. Em seguida, aparecem as ligações telefônicas (79%), sites ou aplicativos falsos (71%), mensagens SMS (71%), e-mail (69%) e redes sociais (67%). Essa diversidade de canais mostra a sofisticação e a persistência dos golpistas em alcançar suas vítimas, explorando todas as frentes digitais e analógicas.

Oyadomari ressaltou que a vulnerabilidade não se restringe a usuários avançados. Mesmo aqueles com menor familiaridade ou habilidades limitadas com a tecnologia estão sujeitos a essas tentativas. Um dado particularmente relevante é que usuários que acessam a internet exclusivamente pelo celular reportam mais tentativas de golpes por sites ou aplicativos falsos, sugerindo que o próprio dispositivo pode, em alguns contextos, aumentar a exposição a riscos.

Impactos Além do Prejuízo Financeiro: Ameaça à Cidadania

As consequências dos golpes digitais vão muito além da perda financeira. A maioria dos usuários que relataram tentativas ou efetivação de golpes mencionou estresse ou mal-estar, afetando emocionalmente tanto a pessoa quanto seus familiares. Essa dimensão psicológica do crime é frequentemente subestimada, mas tem um impacto profundo na qualidade de vida das vítimas.

Além do roubo de dinheiro ou dados bancários, os golpistas visam o acesso a contas e serviços essenciais. A perda de controle sobre um e-mail cadastrado no Gov.br, por exemplo, pode impedir o cidadão de acessar serviços públicos fundamentais, de governo, assistência ou políticas públicas. “Essa questão do roubo de acesso é também um fenômeno de preocupação, não só o prejuízo financeiro”, alertou Oyadomari, sublinhando a ameaça à cidadania digital.

Escolaridade e Vulnerabilidade: Um Desafio para a Inclusão Digital

A pesquisa também estabeleceu uma correlação direta entre o nível de escolaridade e a frequência e gravidade das situações vivenciadas. Usuários com menor escolaridade reportaram todas as tentativas e vítimas com mais frequência, e o “estrago” nesses casos tende a ser maior. Isso aponta para uma desigualdade digital que se manifesta na capacidade de identificar e se proteger contra ameaças online.

Para o coordenador do estudo, é imperativo que a discussão sobre proteção de dados caminhe lado a lado com o desenvolvimento de capacidades e habilidades no uso da tecnologia. “Não adianta promover só uma cultura de proteção de dados, sem levar em consideração que uma parte importante das pessoas precisa desenvolver as habilidades digitais em busca de um ambiente digital seguro”, afirmou, destacando a necessidade de políticas públicas e iniciativas que promovam a inclusão e a educação digital.

Inteligência Artificial e a Nova Fronteira da Privacidade de Dados

Pela primeira vez, o Cetic.br investigou a relação dos brasileiros com ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa sob a ótica da privacidade. Embora o uso profissional ou acadêmico seja o mais comum (73%), não é raro encontrar pessoas utilizando essas plataformas para aconselhamento, suporte emocional e companhia, compartilhando dados íntimos como sentimentos e emoções (54%) e até dados de saúde (52%).

Apesar da ampla utilização, a preocupação com o uso de dados pessoais por parte das empresas responsáveis por essas ferramentas é alta: 66% dos usuários de IA generativa manifestaram preocupação, percentual que sobe para 72% entre os mais escolarizados. Oyadomari explicou que o uso e a preocupação coexistem, impulsionados pelos benefícios da IA, mas também pela falta de transparência sobre como os dados são utilizados.

A partilha de dados de saúde, tradicionalmente considerados sensíveis, com ferramentas de IA generativa é um ponto de grande alerta. A compreensão do que é feito com esses dados é baixa, gerando um nível elevado de preocupação sobre armazenamento e acesso. “Dados de saúde, tradicionalmente, são tidos como dados pessoais sensíveis. Existe toda uma preocupação de como são armazenados e sobre quem pode ter acesso ao seu prontuário médico”, enfatizou o coordenador.

O Papel das Empresas na Proteção de Dados Pessoais

O estudo também se debruçou sobre o cenário corporativo, revelando que 69% das empresas brasileiras que responderam à pesquisa armazenam dados pessoais de clientes e/ou usuários. A biometria (31%) e os dados de saúde (26%) são os tipos de informações mais frequentemente guardados pelas organizações. Preocupa ainda o fato de que 9% das empresas armazenam dados de menores de 18 anos, percentual que atinge 21% em grandes corporações e 19% no setor de alojamento e alimentação.

Apesar da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) ter impulsionado a criação de estruturas de governança, o levantamento indica um quadro de estabilidade na implementação dessas medidas, com 40% das empresas reportando adequação. No entanto, os números mostram que ainda há um longo caminho a percorrer para garantir a segurança e a privacidade dos dados em todos os setores e portes de empresas.

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