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Prejuízo milionário ao crime no Amazonas: facções resistem e mantêm domínio em rios e florestas

Prejuízo milionário ao crime no Amazonas: facções resistem e mantêm domínio em rios e florestas
Exército Brasileiro durante Operação Ágata em 2026 em São Gabriel da Cachoeira Lucas Macedo/g1

Uma série de operações conjuntas, envolvendo forças de segurança estaduais e federais, impôs um prejuízo estimado em R$ 263,48 milhões ao crime organizado no Amazonas entre os anos de 2024 e 2026. Durante esse período, 1.902 pessoas foram presas, demonstrando um esforço considerável do Estado para combater a criminalidade na região. Contudo, apesar do cerco financeiro e do volume de apreensões, especialistas alertam para a persistência e até mesmo a expansão do domínio das facções criminosas sobre as calhas dos rios e as vastas áreas de floresta amazônica.

Os dados, compilados pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) por meio da Diretoria de Inteligência e Operações Integradas (Diopi) e obtidos com exclusividade, revelam a complexidade do cenário. O Governo Federal investiu R$ 265 milhões diretamente no estado para fortalecer a infraestrutura, adquirir equipamentos e apoiar as ações ostensivas de combate ao narcotráfico, evidenciando a dimensão do desafio enfrentado na Amazônia.

Balanço das Operações Integradas no Coração da Amazônia

A atuação coordenada entre os diferentes níveis de governo teve como principal objetivo desarticular os corredores logísticos estratégicos, essenciais para a circulação de ilícitos na região amazônica. O relatório da Senasp detalha uma série de resultados e ações empreendidas no período de 2024 a 2026, que incluem:

  • Realização de 20 operações estratégicas e cumprimento de 139 mandados de prisão.
  • Execução de 457.946 ações ostensivas e 164 operações de inteligência.
  • Apreensão de 9,1 toneladas de drogas, com 48,8 toneladas incineradas.
  • Confisco de 471 armas de fogo e 56 veículos.
  • Recolhimento de 72 toneladas de minério ilícito.

Além das apreensões e prisões, o poder público também investiu na modernização das forças de segurança, com o repasse de R$ 1,21 milhão em materiais estruturantes. Este montante incluiu a aquisição de sete drones, sete viaturas operacionais, munições e softwares avançados de extração de dados, além do treinamento de mais de 90 agentes de segurança no estado. Operações de grande porte, como a Ágata Amazônia, em maio, interceptaram mais de 15 toneladas de drogas na fronteira com Peru e Colômbia, e em julho, mais de 2,5 toneladas de cocaína foram apreendidas próximo a Codajás, demonstrando a intensidade das ações.

Ameaça Constante: Facções Mantêm e Expandem Domínio

Apesar dos aportes milionários e das prisões, analistas de segurança pública apontam que o prejuízo financeiro, embora significativo, é frequentemente absorvido pelas organizações criminosas como um custo operacional inerente aos lucros exorbitantes gerados pelo narcotráfico e outras atividades ilícitas. Para o cientista político e historiador Joel Paviotti, a força das facções reside justamente na capacidade de atuar em áreas onde a presença do Estado é esporádica ou inexistente.

Paviotti destaca que as dificuldades são históricas e estruturais. “As principais dificuldades têm relação com a histórica falta de investimento em estrutura que possa possibilitar a alocação e facilitar o trabalho da polícia e das Forças Armadas. Não há como fazer segurança pública sem muito dinheiro investido”, avalia. Ele também ressalta a falta de integração entre as forças como um fator que dificulta o combate eficaz ao crime organizado. A vastidão das rotas, especialmente a calha do Rio Solimões, torna a contenção do tráfico de cocaína um desafio hercúleo para o efetivo disponível.

“Essas rotas são gigantescas e o efetivo das Forças Armadas e da Polícia Federal não dá conta de mapear, fiscalizar e conter a quantidade de drogas transportada pelos grupos criminosos”, explica Paviotti. Ele ainda aponta a corrupção como um pilar que sustenta o sistema criminoso, alimentado pelos lucros do narcotráfico e que, por sua vez, dificulta o trabalho das poucas forças policiais dedicadas à fiscalização de uma área de proporções continentais.

Novas Fronteiras do Crime: Disputas e Crimes Ambientais

Levantamentos recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam uma sofisticação na atuação das facções na região amazônica. A dinâmica criminosa transcende o narcotráfico puro e simples, evoluindo para um “sistema híbrido” que explora a floresta de diversas maneiras:

  • Disputa Territorial: Com o enfraquecimento da facção Família do Norte (FDN), o Comando Vermelho (CV) consolidou sua posição dominante na Rota do Solimões, entrando em confronto direto com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Essa disputa se estende pela tríplice fronteira (Brasil, Colômbia e Peru), envolvendo a coação de comunidades ribeirinhas e a formação de alianças com grupos armados estrangeiros.
  • Avanço sobre o Meio Ambiente: Além do tráfico de drogas, as organizações criminosas expandiram suas atividades para a exploração ilícita de recursos naturais. O garimpo ilegal, a extração predatória de madeira, a grilagem de terras e o tráfico de ouro não são apenas crimes ambientais, mas também servem como instrumentos diretos de lavagem de dinheiro e como moeda de troca para financiar a compra de drogas e armas nas fronteiras.

Essa interconexão entre o narcotráfico e os crimes ambientais cria um ciclo vicioso, onde a destruição da floresta e a exploração de seus recursos alimentam o poder e a capacidade de atuação das facções, tornando a Amazônia uma nova e perigosa fronteira para a criminalidade organizada.

Respostas do Poder Público e Desafios Futuros

Questionadas sobre a situação, as Forças Armadas reiteraram ao g1 que sua atuação na região é de caráter subsidiário e integrado, focada no combate a crimes ambientais e na proteção da faixa de fronteira. Destacaram a importância das Operações Ágata e das ações de patrulhamento fluvial e aéreo na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia para reforçar a presença estatal e controlar as rotas do tráfico.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública, por sua vez, informou que atua na região por meio do Programa Território Seguro, Amazônia Soberana, priorizando as áreas do Alto Solimões e Alto Rio Negro. O objetivo é desarticular o crime organizado e, simultaneamente, oferecer alternativas lícitas de subsistência à população local, buscando uma abordagem mais abrangente para o problema. A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) foi procurada para comentar a atuação das facções no estado, mas não havia emitido resposta até a última atualização desta reportagem.

O cenário no Amazonas, com o crime organizado resistindo e se adaptando apesar dos esforços e investimentos estatais, sublinha a urgência de estratégias contínuas e multifacetadas. A complexidade da região, aliada à vasta extensão territorial e à interconexão entre diferentes tipos de ilícitos, exige uma vigilância constante e uma abordagem que vá além da repressão, buscando também o fortalecimento social e econômico das comunidades. Para acompanhar de perto os desdobramentos dessa luta e entender o impacto na vida dos amazonenses, continue acessando O Amazonas, seu portal de notícias comprometido com informação relevante, atual e contextualizada.

Fonte: g1.globo.com

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