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Brasil, referência global no combate ao trabalho forçado, reage a novas tarifas dos EUA

Brasil, referência global no combate ao trabalho forçado, reage a novas tarifas dos EUA
© Arquivo/Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O Brasil, país reconhecido internacionalmente por suas robustas políticas de combate ao trabalho forçado e condições análogas à escravidão, encontra-se no centro de uma nova disputa comercial com os Estados Unidos. A partir desta quarta-feira, 22 de julho de 2026, parte dos produtos brasileiros vendidos ao mercado americano passará a ser sobretaxada em 25%, uma medida unilateral de Washington que alega supostas práticas desleais no comércio internacional. Além dessa primeira onda de tarifas, o governo brasileiro antecipa uma nova sobretaxa de 12,5%, justificada pela visão norte-americana de que o Brasil não impede a importação de produtos originários de países que utilizam trabalho forçado.

No entanto, a narrativa americana é veementemente contestada por especialistas e pelo próprio governo brasileiro. Há um consenso de que o Brasil não apenas cumpre seus compromissos internacionais, mas é um modelo global na erradicação da escravidão moderna, uma posição chancelada por organismos como a Organização Internacional do Trabalho (OIT). A controvérsia levanta questões sobre a real motivação por trás das tarifas e o impacto nas relações comerciais entre as duas maiores economias das Américas.

Escalada da tensão comercial e novas taxas

A imposição da taxa de 25%, anunciada em 15 de julho, foi justificada pelo governo de Washington com uma série de acusações que vão além da questão do trabalho forçado. Os Estados Unidos alegam que o Brasil falha em combater o desmatamento, a corrupção e utiliza o sistema de pagamentos instantâneos Pix para prejudicar empresas americanas, entre outras práticas. O governo brasileiro, por sua vez, rejeita categoricamente essas acusações, classificando a medida como “injusta” e sinalizando a possibilidade de recorrer à Lei de Reciprocidade como forma de resposta.

A expectativa de uma nova tarifa de 12,5% adiciona mais uma camada de preocupação ao cenário. Em entrevista à Folha de S.Paulo na última sexta-feira, 17 de julho, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Fernando Elias Rosa, declarou que a nova punição deve ser publicada em 24 de julho. “Vamos saber se ela será cumulativa ou não. O Brasil corre risco de ter uma alíquota de 37,5%”, alertou o ministro, sublinhando a gravidade da situação para as exportações brasileiras.

O cerne da acusação: trabalho forçado em debate

A provável nova taxação de 12,5% baseia-se em um relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). O documento, que investiga 59 países e a União Europeia, aponta que essas economias “falham em impor uma proibição de importação de bens produzidos com trabalho forçado”. No caso específico do Brasil, o USTR rejeita a argumentação de que acordos internacionais já coíbem a importação desses produtos.

O texto do USTR, datado de 2 de junho, afirma: “Embora o Brasil afirme proibir importações produzidas com trabalho forçado por meio de compromissos assumidos em acordos de investimento e de livre comércio, essas disposições não proíbem juridicamente a importação para o mercado interno de bens produzidos, total ou parcialmente, com trabalho forçado em outro país”. Essa interpretação diverge profundamente da visão brasileira, que considera seu arcabouço legal suficiente para barrar tais produtos.

Brasil: um modelo global no combate à escravidão moderna

Em resposta à investigação, o Brasil forneceu à Casa Branca um vasto conjunto de informações técnicas detalhando seu arcabouço legal e institucional para coibir importações de bens produzidos por trabalho forçado. Em 3 de junho, o governo brasileiro manifestou “profunda discordância” da conclusão preliminar americana, classificando a medida como “protecionista”. “É lamentável que tema tão relevante como o da proteção de condições dignas para milhões de trabalhadores e trabalhadoras seja desvirtuado para servir de justificativa a medidas protecionistas unilaterais”, declarou o governo.

O país reiterou que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece há décadas o Brasil como “referência internacional no combate ao trabalho forçado, graças à combinação de fiscalização, responsabilização, cooperação institucional e compromisso político”. O Decreto 12.857, de fevereiro de 2026, formaliza a adesão do Brasil à Convenção nº 29 da OIT sobre o trabalho forçado. Curiosamente, de todos os 187 países membros da OIT, apenas seis não são signatários da convenção, e os Estados Unidos estão entre eles.

O professor de direito internacional Thiago Romero, do Ibmec-SP, ressalta uma distinção crucial. “Existe uma diferença jurídica entre combater o trabalho forçado que ocorre dentro do próprio território e barrar, na alfândega, produtos importados que foram fabricados com trabalho forçado em outro país”, explica. Ele enfatiza que o Brasil é globalmente reconhecido pelo combate ao trabalho forçado dentro de suas fronteiras, um modelo que a própria OIT considera uma das melhores práticas do mundo. O Brasil sustenta que suas autoridades aduaneiras possuem competência legal para negar a entrada e confiscar qualquer mercadoria estrangeira que seja contrária à moral ou à ordem pública, incluindo bens produzidos com trabalho forçado.

Impactos e desdobramentos da disputa

A imposição dessas tarifas, especialmente se cumulativas, pode gerar um impacto significativo em setores específicos da economia brasileira, mesmo que o efeito geral na balança comercial seja considerado limitado por alguns analistas. A disputa também reflete tensões geopolíticas mais amplas, onde questões comerciais se entrelaçam com pautas ambientais, sociais e de governança. A postura do Brasil em defender sua soberania e suas políticas de direitos humanos, ao mesmo tempo em que busca manter um diálogo construtivo, será crucial nos próximos meses.

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