Um incêndio de proporções alarmantes persiste ativo há mais de 40 dias na zona rural de Itacoatiara, no interior do Amazonas. As chamas, que se alastram pela vegetação, já atingiram parte da Terra Indígena Paraná do Arauató, lar do povo Mura, e a fumaça resultante das queimadas tem impactado severamente comunidades e cidades da região. A situação, que se agrava a cada dia, levanta preocupações sobre a devastação ambiental e os riscos à saúde pública.
O primeiro foco de calor na área, às margens do Rio Urubu, foi detectado em 30 de agosto, conforme dados do sistema Fire Information for Resource Management System (FIRMS), da Nasa. Desde então, o monitoramento por satélite revela que a área consumida pelo fogo já ultrapassa os 3 mil hectares, um cenário de destruição que exige atenção urgente das autoridades e da sociedade.
A luta contra as chamas na Terra Indígena Mura
A localização remota e o difícil acesso à região têm sido um dos maiores desafios para as equipes de combate. Brigadistas e bombeiros enfrentam obstáculos intransponíveis para atuar diretamente por solo no foco principal do incêndio. Diante dessa dificuldade, o esforço tem se concentrado no combate aéreo, com o apoio de uma aeronave da Defesa Civil do Amazonas, que realiza o despejo de água sobre as áreas mais críticas.
Na segunda-feira (12), o avião retornou a Itacoatiara e executou dezenas de sobrevoos, em uma tentativa concentrada de conter o avanço das chamas. Contudo, apesar do empenho das equipes, os focos de calor permaneciam ativos na terça-feira (13), evidenciando a complexidade e a resistência do incêndio, que continua a ameaçar a floresta e as comunidades locais.
Origem criminosa e a devastação ambiental
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Itacoatiara (Semma) confirmou que o incêndio tem origem criminosa, um dado que acende um alerta sobre a ação humana na degradação ambiental da Amazônia. No entanto, até o momento, a investigação não resultou na identificação de nenhum suspeito para este foco específico, e o caso segue sob apuração. A natureza criminosa dessas queimadas ressalta a necessidade de fiscalização rigorosa e punição exemplar para os responsáveis, a fim de coibir práticas que colocam em risco um dos biomas mais importantes do planeta.
A perda de mais de 3 mil hectares de vegetação representa um impacto ambiental incalculável, afetando a biodiversidade, o equilíbrio ecológico e a subsistência dos povos indígenas que dependem diretamente da floresta. A recorrência de incêndios criminosos na região é um reflexo de pressões sobre a terra e recursos naturais, muitas vezes ligadas a atividades ilegais ou à expansão desordenada de fronteiras agrícolas.
Itacoatiara sitiada por múltiplos focos de queimadas
O município de Itacoatiara não enfrenta apenas este grande incêndio. Outras ocorrências de grandes proporções têm castigado a zona rural da cidade, agravando o cenário de crise ambiental. Um incêndio na região do Lago do Canaçari, por exemplo, devastou cerca de 1,3 mil hectares de vegetação. Embora tenha sido controlado na sexta-feira (9), após 20 dias de combate, novos focos de calor foram novamente identificados na terça-feira (13), indicando a persistência do problema.
Este incêndio no Lago do Canaçari também é investigado como criminoso, e um suspeito de envolvimento já foi identificado pela Semma. Além disso, na quarta-feira (7), um novo foco foi registrado às margens da rodovia AM-010, próximo ao bairro Jacarezinho, na entrada de Itacoatiara. Segundo o Painel do Fogo, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), essa área atingida somava 211,29 hectares, o equivalente a aproximadamente 296 campos de futebol.
Fumaça e o impacto crítico na saúde pública
A soma desses incêndios tem contribuído para uma drástica piora na qualidade do ar em Itacoatiara e arredores. A fumaça densa e persistente causa desconforto e representa um sério risco à saúde da população, especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias. Uma das situações mais críticas foi registrada na madrugada de 7 de outubro, quando a concentração de partículas poluentes no ar em Itacoatiara ultrapassou 500 microgramas por metro cúbico (µg/m³), de acordo com dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Para contextualizar, a qualidade do ar é considerada boa pelo Selva quando a concentração de partículas está entre 0 e 25 µg/m³. Acima desse patamar, os índices são classificados em categorias que variam de moderada a péssima, conforme a escala utilizada pelo sistema. Atingir mais de 500 µg/m³ indica uma situação de emergência sanitária, com efeitos diretos na saúde respiratória e cardiovascular da população. A crise das queimadas já levou mais da metade das cidades do Amazonas a decretarem estado de emergência, com aulas suspensas e relatos de pessoas passando mal, como um agricultor que desmaiou ao tentar combater um incêndio.
A situação em Itacoatiara é um microcosmo da crise ambiental que assola o Amazonas, exigindo ações coordenadas e eficazes para proteger as florestas, os povos indígenas e a saúde de seus habitantes. O combate aos incêndios criminosos e a fiscalização ambiental são cruciais para reverter esse cenário e garantir um futuro mais sustentável para a região.
Para acompanhar de perto os desdobramentos dessa e de outras notícias relevantes sobre o Amazonas e o Brasil, continue navegando em O Amazonas. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, contextualizada e aprofundada, para que você esteja sempre bem informado sobre os fatos que impactam a nossa realidade.
Fonte: g1.globo.com