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Potássio de Autazes: projeto no Amazonas mira reduzir dependência brasileira de fertilizantes

Potássio de Autazes: projeto no Amazonas mira reduzir dependência brasileira de fertilizantes
Foto: Potássio do Brasil

O Brasil, uma das maiores potências agrícolas do mundo, enfrenta uma contradição central: a alta dependência de potássio importado para sustentar a produtividade de suas lavouras. Essa vulnerabilidade, construída ao longo de décadas, expõe o agronegócio nacional a flutuações cambiais, custos de transporte, oscilações internacionais e tensões geopolíticas. É nesse cenário que o Projeto Potássio Autazes, no Amazonas, surge como uma iniciativa estratégica com potencial para reconfigurar o abastecimento de um insumo vital.

O potássio é um dos três nutrientes primários dos fertilizantes, essencial para o desenvolvimento das raízes, a regulação hídrica das plantas e o aumento da resistência a condições adversas. Culturas fundamentais para a economia brasileira, como soja, milho, cana-de-açúcar, café e algodão, dependem diretamente desse mineral.

A Contradição da Dependência em Números

Apesar da importância inquestionável, a produção doméstica de potássio no Brasil está muito aquém da demanda. Um diagnóstico setorial da Agência Nacional de Mineração (ANM) de 2026 estimou em cerca de 97% a dependência brasileira do mercado externo. Entre 2020 e 2024, o país importou, em média, 13,14 milhões de toneladas de potássio por ano.

Os dados mais recentes confirmam essa realidade. De janeiro a agosto de 2026, o Brasil importou 9,76 milhões de toneladas de cloreto de potássio, conforme levantamento baseado no Comex Stat, sistema oficial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Embora esse volume represente uma redução de aproximadamente 3,6% em relação ao mesmo período de 2025 (10,12 milhões de toneladas), essa oscilação não indica uma mudança estrutural na dependência.

As importações podem variar devido a fatores como preços internacionais, câmbio, níveis de estoque e calendário de compras. Sem um aumento substancial da produção interna, a redução pontual não se traduz em maior autossuficiência. Atualmente, a produção convencional de potássio no Brasil concentra-se no Complexo Mineroquímico de Taquari-Vassouras, em Rosário do Catete, Sergipe, operado pela VL Mineração desde novembro de 2025.

O Sumário Mineral Brasileiro 2025, da ANM, registrou uma produção de aproximadamente 398,5 mil toneladas de potássio (K₂O contido) em 2024. É importante notar que essa medida difere das toneladas físicas de cloreto de potássio importadas, pois o KCl comercial geralmente contém cerca de 60% de K₂O equivalente. Além disso, a produção de 349 mil toneladas de rochas potássicas para remineralizadores em 2024 possui características e aplicações distintas do cloreto de potássio convencional.

Potássio Autazes: Uma Nova Dimensão para o Abastecimento Nacional

É neste contexto que o Projeto Potássio Autazes, localizado no Amazonas, adquire uma dimensão estratégica para o país. Com uma produção anual projetada entre 2,2 milhões e 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio, o empreendimento pode representar um avanço significativo. O Sumário Mineral Brasileiro 2025 prevê 2,2 milhões de toneladas de produto (equivalentes a 1,6 milhão de toneladas de K₂O), enquanto a Potássio do Brasil, responsável pelo projeto, trabalha com uma capacidade nominal de até 2,4 milhões de toneladas de KCl por ano.

A ANM estima que Autazes poderá suprir aproximadamente 17% do consumo brasileiro, enquanto a empresa projeta cerca de 20%. Essa diferença se deve a fatores como o período de referência e a demanda utilizada nos cálculos. Em qualquer cenário, a contribuição é relevante. O insumo, em vez de atravessar oceanos, sairia do interior do Amazonas e seria transportado predominantemente por barcaças, em uma operação logística que pode envolver parceria com a Amaggi.

Essa produção nacional encurtaria a cadeia de abastecimento, diminuindo a exposição do Brasil a fornecedores externos e aumentando a segurança em momentos de crises internacionais. Este aspecto é crucial, dado que o mercado mundial de potássio é concentrado em poucos grandes produtores, como Canadá, Rússia e Belarus.

No entanto, é fundamental contextualizar as expectativas. Autazes poderá reduzir a dependência, mas não eliminá-la. Mesmo operando em plena capacidade, a maior parte do potássio consumido no Brasil ainda viria do exterior. A autossuficiência não será alcançada por uma única mina, especialmente em um mercado cuja demanda cresce com a expansão e a intensidade tecnológica da agricultura. A vida útil inicial do empreendimento é estimada em 23 anos, o que significa que sua contribuição dependerá da confirmação e eventual ampliação das reservas, além do desenvolvimento de outros projetos no país.

O Caminho Antes da Produção Efetiva

O projeto ainda não está em fase de produção. Atualmente, possui licença de instalação concedida pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e encontra-se em fase de engenharia, preparação e estruturação financeira. Em 2026, a Brazil Potash, controladora da Potássio do Brasil, contratou os serviços de engenharia básica, conhecidos como FEED (Front-End Engineering Design), que abrangem as instalações de superfície, os poços de acesso à mina e o desenvolvimento subterrâneo.

A conclusão dessa etapa está prevista para o início do segundo trimestre de 2027. A empresa considera o FEED um requisito essencial para a definição precisa dos custos, a contratação dos principais pacotes e as negociações de financiamento da construção. O Sumário Mineral Brasileiro 2025 indica 2030 como estimativa para o início da produção, mas esse horizonte não é um prazo assegurado, dependendo da finalização da engenharia, do fechamento financeiro, da mobilização de fornecedores e da manutenção das condições regulatórias e judiciais. O investimento necessário à construção é estimado em aproximadamente US$ 2,5 bilhões, valor que pode ser atualizado.

Movimentos Recentes e a Política Nacional de Fertilizantes

Dois anúncios em setembro de 2026 reforçaram a preparação do projeto. No dia 10, a empresa destacou os possíveis benefícios do Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert) e linhas de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). É importante ressaltar que a existência desses instrumentos não garante enquadramento automático ou aprovação de crédito, pois há análises técnicas, financeiras, jurídicas e de risco envolvidas.

No dia 14, a Brazil Potash anunciou a assinatura de um contrato definitivo de energia com a Gera Center, empresa de Manaus. A parceria, iniciada em maio de 2026 com um memorando de entendimento, avançou para um acordo de 28 anos. Ele prevê a instalação de uma usina modular a diesel com capacidade máxima de 20 megawatts para abastecer a fase de construção por cerca de cinco anos. A estrutura, composta por 63 grupos geradores modulares, será implantada gradualmente.

Após a conexão planejada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), os equipamentos atuarão como geração de reserva por aproximadamente 23 anos. Pelo modelo BOOT (construir, possuir, operar e transferir), a fornecedora financiará, instalará, operará e manterá a estrutura, o que retirará cerca de US$ 33 milhões dos desembolsos iniciais de energia do projeto. Contudo, esse modelo transfere o custo econômico para a remuneração ao longo do contrato, e levanta questões sobre consumo de diesel, emissões, transporte e armazenamento de combustível, prevenção de vazamentos e o cronograma efetivo da conexão ao SIN.

Esses avanços empresariais são cruciais, mas não devem ser confundidos com obra integralmente financiada ou produção assegurada. Eles demonstram que o projeto busca resolver, passo a passo, questões de engenharia, energia, logística, mercado e capital antes da construção. A redução da dependência externa também ganhou destaque na política industrial brasileira. O Plano Nacional de Fertilizantes 2022-2050, acompanhado pelo Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas, estabelece objetivos como a modernização de plantas, atração de investimentos, pesquisa de novas fontes e melhoria da infraestrutura. Em 3 de setembro de 2026, a Lei nº 15.496 instituiu o Profert, focado na infraestrutura para a produção nacional de fertilizantes e estabelecendo uma participação mínima de fertilizantes sintéticos produzidos no Brasil nos produtos comercializados no país.

Para continuar acompanhando as atualizações sobre o Projeto Potássio Autazes e outros temas relevantes para o desenvolvimento do Amazonas e do Brasil, mantenha-se informado com O Amazonas. Nosso portal oferece uma cobertura aprofundada e contextualizada, garantindo que você tenha acesso à informação de qualidade que realmente importa.

Fonte: g1.globo.com

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