O estado do Amazonas registrou um avanço notável no Ranking de Competitividade dos Estados de 2026, subindo da 17ª para a 14ª posição e se consolidando como o mais bem colocado da Região Norte. Este progresso, que coloca o estado ao lado do Ceará como um dos que mais evoluíram na classificação geral, é um indicativo de melhorias em pilares como potencial de mercado, segurança pública e sustentabilidade social.
No entanto, a mesma análise, divulgada em 27 de agosto pelo Centro de Liderança Pública (CLP) com pesquisa técnica da Tendências Consultoria, revela uma contradição persistente: o Amazonas permanece na 27ª e última posição do país em infraestrutura. Este dado acende um alerta crucial para o futuro do desenvolvimento econômico e social da região, especialmente em um momento de expansão do Polo Industrial de Manaus (PIM).
Amazonas em ascensão, mas com um calcanhar de Aquiles
A 15ª edição do estudo do CLP avalia as 27 unidades da Federação por meio de 100 indicadores, organizados em dez pilares. A infraestrutura, com peso de 11,3% na classificação geral, é o terceiro pilar mais relevante e abrange aspectos como telecomunicações, combustíveis, saneamento, voos diretos, energia elétrica, rodovias e fibra óptica. Ou seja, vai muito além das estradas, medindo um conjunto de condições essenciais para a vida da população e para a capacidade de um estado atrair e reter investimentos.
Embora o avanço geral seja digno de reconhecimento, o relatório aponta que quatro indicadores do ranking passaram por ajustes metodológicos em 2026. No caso do Amazonas, o pilar de potencial de mercado avançou cinco posições, e o indicador de qualidade de crédito para pessoa física subiu 21 colocações, com o próprio estudo ressalvando a alteração no cálculo. Essa observação não invalida a melhora do estado, mas sugere uma interpretação cautelosa: a ascensão no ranking reflete uma melhora relativa frente a outras unidades da Federação, e não necessariamente uma evolução homogênea em todos os indicadores.
O Polo Industrial de Manaus em plena efervescência
Paralelamente ao cenário de competitividade, o Amazonas vive um período de dinamismo industrial. Nos primeiros seis meses de 2026, o Polo Industrial de Manaus (PIM) faturou R$ 121,76 bilhões e manteve uma média mensal de 130.903 empregos, conforme dados da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). As exportações no período alcançaram US$ 391,04 milhões, demonstrando a relevância do PIM no cenário nacional e internacional.
Projetos de novas linhas de produção, ampliações de fábricas e investimentos em segmentos como duas rodas, eletroeletrônicos, informática, componentes, energia e alimentos confirmam que Manaus continua sendo um polo de atração para empresas nacionais e estrangeiras. Em 14 de agosto, a 324ª Reunião Ordinária do Conselho de Administração da Suframa (CAS) aprovou 25 projetos industriais e de serviços, com investimentos estimados em R$ 335,3 milhões e a expectativa de gerar 859 postos de trabalho em até três anos.
O custo oculto da infraestrutura precária
Apesar da robusta dinâmica econômica, o crescimento industrial não pode ser dissociado do território. Cada expansão de fábrica eleva a demanda por energia estável, conectividade eficiente, transporte de trabalhadores, armazenagem adequada e escoamento ágil de produtos. Quando a infraestrutura não acompanha essa evolução, os custos se manifestam em diversos pontos da cadeia produtiva: na conta de energia, no preço do combustível, no valor do frete, no tempo perdido no transporte, na necessidade de manter estoques maiores ou na demora para que os produtos cheguem ao consumidor final.
É importante ressaltar que a última colocação em infraestrutura não significa um desempenho ruim em todos os indicadores. O Amazonas se destaca positivamente em áreas como o custo da energia elétrica (4º lugar), qualidade dos serviços de telecomunicações (5º) e custo do saneamento básico (9º), além da 12ª posição em disponibilidade de voos diretos. Contudo, a interpretação desses dados deve ser cuidadosa. Um custo menor não garante ampla cobertura ou qualidade satisfatória do serviço. Por exemplo, apesar do baixo custo da energia, o estado ocupa a última posição em acesso à energia elétrica e a 15ª em qualidade de fornecimento.
Desafios e particularidades da Amazônia
Os pontos mais frágeis da infraestrutura amazonense são acentuados pela vasta extensão territorial, baixa densidade populacional, grandes distâncias e a intrínseca dependência dos rios. O Amazonas está em 27º lugar em acesso à energia elétrica e alcance do backhaul de fibra óptica, essencial para a conectividade de alta capacidade nos municípios. Ocupa a 26ª posição na qualidade das rodovias, a 25ª no custo dos combustíveis e a 22ª na acessibilidade dos serviços de telecomunicações.
A nota zero atribuída ao Amazonas no pilar de infraestrutura, uma pontuação normalizada para comparação, indica o menor resultado relativo entre os estados. A permanência nesta posição pelo segundo ano consecutivo é um alerta de que os avanços em outras áreas não têm sido suficientes para superar um dos problemas mais enraizados do estado. Embora a geografia amazônica, com a predominância de hidrovias e a menor relevância das rodovias, seja um fator, ela não explica sozinha a última colocação. Estados vizinhos como Rondônia (7º) e Amapá (10º) demonstram que pertencer à Região Norte não é sinônimo de estar nas últimas posições. A geografia dimensiona o desafio, mas não deve ser uma justificativa permanente para a ausência de planejamento e soluções adaptadas.
A urgência de um planejamento integrado
A expansão do PIM torna a discussão sobre infraestrutura ainda mais urgente. A competitividade de longo prazo de Manaus dependerá não apenas dos incentivos fiscais, que são cruciais para compensar as desvantagens de localização da Zona Franca, mas também da qualidade da infraestrutura externa aos muros das fábricas. Quanto maiores os gargalos em energia, logística e conectividade, maior será o esforço necessário para sustentar essa compensação.
É imperativo que a infraestrutura seja vista como parte integrante da política industrial. Isso implica em melhorias nos acessos ao Distrito Industrial, ampliação da capacidade portuária, modernização da navegação e dos aeroportos regionais, garantia de energia confiável, expansão da fibra óptica e redução da vulnerabilidade logística durante as severas secas. Além disso, preparar a infraestrutura para o crescimento industrial significa olhar para os milhares de trabalhadores que diariamente se deslocam para o Polo, garantindo transporte coletivo, segurança viária, drenagem, iluminação e melhores acessos, impactando diretamente a produtividade e a qualidade de vida. Um planejamento integrado entre governos federal, estadual e municipal, em diálogo com a Suframa, empresas, trabalhadores e entidades do setor produtivo, é fundamental para reverter este cenário e garantir que o crescimento do PIM seja sustentável e beneficie todo o Amazonas.
Para continuar acompanhando análises aprofundadas sobre a economia, desenvolvimento e os desafios do Amazonas, mantenha-se conectado com O Amazonas. Nosso compromisso é trazer informação relevante e contextualizada para que você esteja sempre bem informado sobre o que realmente importa em nossa região.
Fonte: g1.globo.com