A agricultura de Roraima enfrenta um cenário desolador. A falta prolongada de chuvas durante o ciclo de desenvolvimento das lavouras resultou em perdas significativas na produção de milho e uma drástica redução na produtividade da soja. Pequenos agricultores relatam a perda total de plantações inteiras, enquanto grandes propriedades estimam uma queda de até 50% na colheita da soja, um dos principais grãos cultivados no estado.
Este quadro alarmante, que foi destaque no programa Amazônia Agro, reflete a influência direta do fenômeno El Niño, cujos efeitos de aquecimento e seca já haviam sido previstos por órgãos de monitoramento climático. A Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh) havia emitido alertas sobre as condições adversas que se confirmaram, impactando diretamente a subsistência de centenas de famílias e a economia local.
Estiagem Castiga Lavouras de Milho e Agricultura Familiar
Entre os pequenos agricultores, o milho foi uma das culturas mais severamente atingidas. Sérgio Fernandes Medeiros, produtor rural na região do Projeto de Assentamento Nova Amazônia, narra a frustração de ver sua lavoura de nove hectares completamente perdida. Apesar de seguir todas as técnicas de preparo do solo e prazos de plantio, a estiagem implacável inviabilizou qualquer colheita.
“A gente respeitou todas as proteções que a planta precisa, mas infelizmente o clima não ajudou. Para esse ano a expectativa praticamente é zero [de colheita]. Esse plantio a gente já deu como perdido”, lamenta Sérgio Fernandes. A perda do milho não afeta apenas o bolso do agricultor, mas tem um impacto direto no abastecimento das cidades e em programas sociais essenciais.
Sérgio atua em uma cooperativa que reúne cerca de 800 produtores, dos quais aproximadamente 400 fornecem alimentos para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e para a merenda escolar de escolas públicas. A ausência do milho, e a ameaça à produção de hortaliças, pode comprometer a entrega desses alimentos, afetando a segurança alimentar de milhares de pessoas e a sustentabilidade desses programas.
“O plantio de milho esse ano vai ser praticamente zero aqui dos nossos agricultores. E isso vai impactar lá na frente, porque vai faltar esse grão, vai impactar na cadeia do boi, vai impactar na cadeia do suíno, no frango. Então hoje o primeiro impacto vai ser no bolso do agricultor, mas futuramente vai dar um impacto muito grande na economia do nosso Estado”, estimou o produtor, ressaltando o efeito cascata da crise.
Soja: Queda Drástica na Produtividade e Prejuízos Bilionários
A cultura da soja, pilar do agronegócio roraimense, também sofreu um golpe pesado. A família do agricultor Johann Chupel, que realiza sua primeira safra no estado, testemunhou a alteração nas plantas logo no início do cultivo. “A gente percebeu a falta de chuva já logo após o plantio. A planta não enche o grão e assim perde a produtividade”, explica Johann.
Em sua propriedade, a colheita já está em andamento, e a estimativa é de que a produção caia entre 20% e 25% devido aos grãos mais leves. O cenário geral é ainda mais preocupante. Murilo Ferrari, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja), projeta uma queda de pelo menos 50% na produtividade da soja em todo o estado, uma das maiores perdas já registradas.
A previsão inicial para este ano era superar 500 mil toneladas do grão, mas Roraima pode deixar de colher aproximadamente 260 mil toneladas. O impacto financeiro direto no campo é estimado em R$ 500 milhões. Contudo, ao considerar o efeito multiplicador em toda a cadeia do agronegócio, as perdas econômicas para o estado podem ultrapassar a marca de R$ 2 bilhões, um valor que representa um duro golpe para a economia regional.
El Niño: O Fator Climático por Trás da Crise
A estiagem que assola Roraima não é um evento isolado, mas uma consequência direta da influência do El Niño, um fenômeno climático natural que se caracteriza pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Este aquecimento altera os padrões de circulação atmosférica global, resultando em mudanças significativas no regime de chuvas e temperaturas em diversas regiões do planeta, incluindo o Brasil.
Em Roraima, o El Niño historicamente provoca um aumento das temperaturas e uma redução drástica nas precipitações, tornando o estado mais quente e seco. As previsões da Femarh e de outros órgãos de monitoramento climático foram cruciais para alertar os produtores sobre os riscos, embora a magnitude do impacto tenha superado as expectativas de muitos. A compreensão e o investimento em sistemas de alerta e adaptação climática tornam-se cada vez mais urgentes diante da recorrência e intensidade desses fenômenos.
Desafios Futuros e a Resiliência do Campo
As perdas nas lavouras de milho e soja em Roraima representam um desafio multifacetado. Além do impacto econômico imediato para os produtores e para o estado, há preocupações com o aumento dos preços dos alimentos, a segurança alimentar e a necessidade de apoio governamental para que os agricultores possam se recuperar. A resiliência do campo será testada, exigindo estratégias de mitigação e adaptação a um clima cada vez mais imprevisível.
A busca por variedades de culturas mais resistentes à seca, o investimento em tecnologias de irrigação eficientes e a diversificação da produção são algumas das medidas que podem auxiliar os produtores a enfrentar futuros eventos climáticos extremos. A crise atual serve como um lembrete contundente da vulnerabilidade da agricultura às mudanças climáticas e da importância de políticas públicas robustas para o setor.
Para mais informações sobre os impactos do El Niño na agricultura brasileira, clique aqui.
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Fonte: g1.globo.com