A recente imposição de uma tarifa adicional de 25% pelos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro, embora seja uma medida que gera atenção no cenário do comércio internacional, deve provocar impactos pontuais e restritos a algumas empresas exportadoras. Especialistas do setor avaliam que o efeito dessa decisão sobre o conjunto da economia brasileira tende a ser limitado, impulsionando, contudo, uma já crescente busca por diversificação de mercados.
A medida, que entrou em vigor em julho de 2026, é vista por analistas como tendo um forte componente político, em um momento em que a participação do mercado norte-americano nas exportações de etanol do Brasil já vinha em declínio. Os EUA, que já foram um destino mais relevante, hoje representam menos de 16% do volume total exportado pelo país.
Mercado em transformação e a busca por previsibilidade
A maior parte das vendas externas de etanol brasileiro já é direcionada a outros compradores internacionais, apesar de os Estados Unidos ainda figurarem como o segundo principal destino do biocombustível nacional. Segundo Luiz Carlos Delorme Prado, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a participação dos EUA nas exportações brasileiras já se reduzia há anos, tornando o peso da tarifa relativamente pequeno.
Para o especialista em economia e comércio internacional, as chances de reversão dessa tendência de tarifação são mínimas. Ele ressalta que, embora a perda de um mercado como o estadunidense seja indesejável para setores específicos, não representa uma “tragédia” para a economia do país. A estratégia mais provável para o Brasil é intensificar a busca por mercados alternativos, algo que já vinha sendo feito.
A imprevisibilidade das políticas comerciais do governo de Donald Trump tem tornado o mercado dos EUA problemático para os exportadores brasileiros. Delorme Prado argumenta que investir especificamente para atender a esse mercado se tornou um risco elevado, dada a falta de previsibilidade e racionalidade nas decisões comerciais. “Não há garantias de que seja possível estabelecer políticas comerciais bilaterais minimamente previsíveis com os EUA porque o que move o tarifaço não são ganhos de natureza comercial, mas a agenda política do governo deles para a América Latina”, explica o professor.
Dados do setor: participação minoritária e resiliência
Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, gerando uma receita de quase US$ 1 bilhão. Desse total, os embarques para o mercado norte-americano somaram cerca de 253 mil metros cúbicos, equivalentes a US$ 163 milhões. Os dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) confirmam que os EUA responderam por menos de 16% do volume exportado e cerca de 17,5% da receita total. Isso significa que mais de 84% do volume e 82,5% do faturamento das exportações de etanol tiveram outros destinos internacionais.
Vantagens competitivas: a força do etanol nacional
A competitividade do Brasil no setor sucroalcooleiro confere uma vantagem significativa na busca por novos mercados. As vantagens são estruturais, com custos de produção mais baixos e maior produtividade por hectare. Luis Augusto Barbosa Cortez, professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), destaca que fatores como clima e solo são cruciais para o Brasil.
Enquanto os EUA produzem etanol majoritariamente a partir do milho, o Brasil, tradicionalmente produtor de etanol de cana-de-açúcar, tem expandido sua produção a partir do milho. A tendência é que a participação do milho na produção nacional cresça ainda mais, impulsionada pela possibilidade de segunda safra no clima brasileiro, o que não ocorre na mesma escala nos EUA devido aos invernos rigorosos.
Atualmente, cerca de 75% do etanol brasileiro vem da cana-de-açúcar e 25% do milho. A expectativa é que a participação do milho alcance 30% até 2030 e possa se igualar à da cana por volta de 2050. Esse crescimento é impulsionado pela integração entre agricultura e pecuária, onde o farelo do milho serve como insumo para alimentação animal, gerando ganhos ambientais ao reduzir a necessidade de áreas de pastagem.
Cortez também aponta vantagens no processo industrial brasileiro, onde parte da energia das usinas é gerada a partir da biomassa do bagaço da cana e do milho, reduzindo custos. “Nos Estados Unidos, eles precisam comprar energia para parte do processo de produção do etanol. No Brasil, resolvemos isso dentro da própria usina. Por isso o custo deles é maior”, explica.
A produtividade do etanol de cana no Brasil, de aproximadamente 7 mil litros por hectare, supera a dos EUA, que atinge no máximo 5 mil litros por hectare de milho.
O componente político por trás das tarifas
Niels Soendergaard, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), reforça que as medidas tarifárias dos EUA contra o Brasil têm um “caráter eminentemente político”, apesar de uma “maquiagem técnica”. Ele argumenta que a administração Trump tem usado a pressão econômica externa para tentar manipular desdobramentos políticos na América Latina, distorcendo fatos.
Do ponto de vista técnico, a argumentação dos EUA não se sustenta. O Brasil cumpre as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), e a redução das importações de etanol dos EUA se deve ao aumento da produção de etanol de milho no próprio Brasil. Soendergaard critica a postura do governo Trump de fazer afirmações “parciais ou inteiramente divorciadas dos fatos concretos” para pressionar outros países, o que o torna um interlocutor pouco confiável.
Os Estados Unidos justificam as tarifas com base em uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), que alega práticas brasileiras discriminatórias ou prejudiciais à economia norte-americana. Entre os pontos questionados estão o acesso ao mercado brasileiro de etanol, regras de comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, medidas anticorrupção e desmatamento ilegal. O governo brasileiro, por sua vez, rejeita essas alegações, afirmando que a investigação carece de respaldo nas normas multilaterais do comércio internacional.
A tarifação recebeu críticas das entidades representativas tanto dos produtores de etanol de cana quanto de milho, como a Unica, que se manifestou contra a medida.
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