A chegada do período de estiagem no Amazonas deixou de ser uma surpresa para se tornar um exercício anual de gestão de riscos. Com as memórias ainda vivas das secas severas de 2023 e 2024, que impuseram gargalos logísticos severos, a preocupação do setor produtivo e das autoridades volta a se concentrar na navegabilidade dos rios. Mais do que observar a descida das águas, o foco atual está em como coordenar ações para mitigar os efeitos sobre o abastecimento e a economia regional.
Embora o nível dos rios ainda se mantenha dentro da normalidade para o período, o mercado já sente os reflexos preventivos. Grandes armadores internacionais, como Maersk, MSC, CMA CGM e Hapag-Lloyd, emitiram comunicados informando sobre possíveis sobretaxas para cargas com destino ou origem em Manaus. Essas medidas, justificadas como precauções diante de projeções de baixa navegabilidade, acenderam um alerta na indústria e no comércio local, que buscam clareza sobre a aplicação desses custos extras.
Regulação e o papel da Antaq no controle de custos
A reação do setor produtivo foi imediata. A Associação Comercial do Amazonas (ACA) apresentou petições à Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), solicitando fiscalização rigorosa sobre os critérios dessas cobranças. A entidade busca garantir que qualquer sobretaxa esteja em conformidade com as normas vigentes e devidamente justificada por impactos operacionais reais, evitando cobranças arbitrárias que possam inflacionar o custo de vida e a produção na Zona Franca de Manaus.
O histórico recente serve de base para essa discussão. Em 2025, a Antaq estabeleceu, por meio de medida cautelar e referendada pelo Acórdão nº 733/2025, o parâmetro de 17,7 metros no rio Negro como referência para o ciclo hidrológico. O Ministério Público Federal (MPF), em recomendação de março de 2026, reforçou que custos extraordinários devem ser documentados e comunicados com transparência, garantindo que o setor produtivo não seja surpreendido por tarifas sem lastro técnico.
Cenário hidrológico e o monitoramento climático
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) mantém o monitoramento constante das bacias. Até meados de agosto, a maioria das estações apresentava níveis dentro da faixa esperada, apesar de chuvas abaixo da média em áreas específicas da Bacia Amazônica. O rio Negro, em Manaus, seguia uma trajetória de recuo, mas ainda distante dos níveis críticos que restringem severamente a navegação de grandes comboios.
O fator climático, contudo, permanece como uma variável de peso. O fenômeno El Niño, com probabilidade superior a 90% de atingir intensidade elevada entre o final de 2026 e o início de 2027, conforme dados da NOAA, exige cautela. Embora os efeitos do fenômeno não sejam uniformes na Amazônia, a possibilidade de redução de chuvas reforça a necessidade de um planejamento que considere diferentes cenários de severidade da estiagem.
Prevenção e infraestrutura logística
Diferente de anos anteriores, a região conta com uma estrutura de resposta mais organizada. O Governo Federal, por meio de contratos de longo prazo, mantém o Plano de Dragagem de manutenção e sinalização náutica em trechos críticos dos rios Amazonas e Solimões. Com investimentos na casa dos R$ 500 milhões previstos para cinco anos, o objetivo é garantir que, mesmo em condições de seca, a navegabilidade seja preservada nos pontos de maior estrangulamento.
Além da esfera federal, o Governo do Amazonas e a Prefeitura de Manaus já ativam seus planos de contingência. A estratégia envolve desde a antecipação de estoques por parte das empresas até a articulação entre órgãos de defesa civil para garantir o atendimento a comunidades isoladas. O compromisso com a informação precisa e o monitoramento contínuo, disponível em portais como o Serviço Geológico do Brasil, é o que permite ao estado enfrentar a vazante com mais resiliência e menos incertezas.
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Fonte: g1.globo.com