O subsolo do Amazonas, um dos estados mais ricos em biodiversidade e recursos naturais do Brasil, guarda um paradoxo intrigante. Apesar de possuir jazidas de relevância internacional, com insumos estratégicos para a transição energética global, o setor mineral amazonense ainda engatinha em termos de participação e arrecadação. Dados recentes da Agência Nacional de Mineração (ANM) revelam que o estado responde por apenas 6,1% dos processos minerários ativos na Amazônia Legal e por meros 0,5% dos royalties (CFEM) arrecadados na região, mesmo com um faturamento que alcançou R$ 908 milhões em 2024.
Essa disparidade acende um debate crucial sobre os limites técnicos, econômicos e socioambientais da mineração em um bioma tão sensível como a floresta tropical. Para desvendar os gargalos que travam o avanço desse setor e os riscos envolvidos, O Amazonas ouviu especialistas em geologia e direito ambiental, que apontam caminhos e desafios para uma exploração mais sustentável e equitativa.
O vasto potencial mineral do subsolo amazonense
A Bacia do Amazonas é um verdadeiro tesouro geológico, concentrando reservas de grande escala que são cruciais para a economia moderna. O principal destaque no estado é o Projeto Potássio Autazes, localizado no município de Autazes, a 112 km de Manaus. Ali, a silvinita, rocha da qual se extrai o potássio — um fertilizante essencial para a agricultura —, estende-se por mais de 155 km², em profundidades que variam entre 685 e 865 metros.
Além do potássio, levantamentos do Serviço Geológico do Brasil (SGB) indicam um alto potencial de nióbio e terras raras na Bacia do Rio Negro. Esses minerais são vitais para tecnologias de ponta, como eletrônicos, baterias e turbinas eólicas. A Mina Pitinga, em Presidente Figueiredo, já se consolidou como a maior reserva e produtora de estanho do Brasil, um metal com diversas aplicações industriais.
Contudo, nem todo potencial é facilmente acessível. No Morro dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira, existe uma reserva estimada em 2,9 bilhões de toneladas de minério com teor médio de 2,8% de nióbio. A exploração, no entanto, é inviável devido à tripla sobreposição de unidades de proteção ambiental e terras indígenas, demonstrando a complexidade territorial da região.
Desafios geológicos e a viabilidade técnica da mineração
A baixa representatividade do Amazonas nos processos minerários da Amazônia Legal não significa falta de minérios, mas sim a complexidade de sua identificação e extração. O geólogo Tiago Felipe Arruda Maia, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e especialista em gênese de depósitos minerais, explica que a predominância de rochas sedimentares e a densa cobertura florestal dificultam a prospecção de jazidas.
Apesar disso, a existência de minérios é inegável, como evidenciado pelas constantes apreensões de materiais em rios e aeronaves clandestinas, além das inúmeras ocorrências de garimpos ilegais.
Fonte: g1.globo.com