O avanço do período mais seco do ano no Amazonas, conhecido como “verão amazônico”, revela um contraste térmico acentuado no dia a dia da capital. Enquanto áreas com vegetação densa conseguem manter temperaturas mais amenas, bairros altamente urbanizados de Manaus enfrentam um calor sufocante, intensificado pelo fenômeno das ilhas de calor. Essa disparidade não apenas afeta o conforto, mas também levanta sérias preocupações sobre a saúde pública e a resiliência urbana diante das mudanças climáticas.
O cenário, que se agrava nas primeiras semanas de agosto com o registro de altas temperaturas, expõe a vulnerabilidade de uma cidade que, por sua localização equatorial, já convive com calor e umidade elevados. A intervenção humana na paisagem urbana, com a predominância de concreto e asfalto, amplifica um problema que exige atenção imediata e soluções estruturais.
O Fenômeno das Ilhas de Calor em Detalhe
As ilhas de calor são um fenômeno urbano onde superfícies construídas pelo homem, como asfalto, concreto, telhados e tijolos, absorvem intensamente a radiação solar durante o dia. Esse calor é então liberado lentamente para o ambiente, elevando significativamente a temperatura do ar, mesmo durante a noite. A ausência de vegetação, que naturalmente ajuda a resfriar o ambiente através da evapotranspiração e do sombreamento, contribui para que quarteirões inteiros funcionem como verdadeiros acumuladores térmicos.
A Dra. Luciana Gatti, pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), alerta para a urgência de adaptação urbana. “Para a nossa sobrevivência, a gente precisa de cidades menos quentes”, destaca a especialista. Segundo ela, a explicação para o aquecimento desigual na cidade reside no alto nível de urbanização e na impermeabilização do solo, que transformam o ambiente urbano em um retentor de energia térmica.
Vulnerabilidade de Manaus: Clima e Urbanização
Manaus, por sua localização geográfica sob o clima equatorial, já possui naturalmente altas taxas de umidade e uma incidência solar intensa ao longo do ano. No entanto, são as transformações no espaço urbano que potencializam o problema das ilhas de calor, conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
- Impermeabilização do solo: A pavimentação densa sobre antigas áreas verdes impede a infiltração da água da chuva. Sem água retida no solo para evaporar, a cidade perde um de seus mecanismos naturais de resfriamento.
- Retenção no asfalto e concreto: A predominância de materiais escuros na pavimentação e nas construções possui baixo índice de refletividade (albedo). Isso significa que asfalto e concreto atuam como ‘esponjas térmicas’, absorvendo a energia solar de dia e liberando-a gradualmente à noite.
- Barreiras para a circulação do ar: O crescimento urbano acelerado e, por vezes, desordenado, com a construção de edifícios em diversos bairros, cria bloqueios físicos. Essas barreiras impedem que as brisas úmidas vindas dos rios Negro e Amazonas circulem livremente pela cidade, dissipando o calor.
A meteorologista Andrea Ramos explica que o baixo nível dos rios durante a seca do verão amazônico (julho a novembro) não gera diretamente uma massa de ar quente. O que favorece o calor é o ambiente atmosférico que contribui para a estiagem: menor frequência de chuva, menor nebulosidade e maior incidência de radiação solar. Quando o solo e a vegetação perdem umidade, a energia solar deixa de ser utilizada na evaporação da água e passa a ser convertida em calor sensível, aquecendo diretamente o ar próximo à superfície.
Impactos na Qualidade de Vida e a Sensação Térmica
O impacto das ilhas de calor em Manaus é ainda mais crítico devido às condições da atmosfera equatorial. A redução de nuvens no verão amazônico permite longas horas de incidência solar direta. Contudo, esse aquecimento severo ocorre em um ambiente que permanece com alta umidade relativa, uma combinação que, segundo Andrea Mendes, é determinante para o risco à saúde humana.
Quando a umidade está elevada, o suor evapora com menor eficiência, reduzindo a principal forma de resfriamento do corpo. Assim, uma temperatura de 36°C ou 37°C pode produzir uma sensação térmica significativamente maior do que o valor indicado pelo termômetro. A Dra. Luciana Gatti reforça que a falta de arborização aliada aos materiais da construção civil transforma as cidades em ambientes hostis e perigosos durante eventos extremos de calor, impactando desde o conforto no transporte público até a saúde dos moradores.
Estratégias para Cidades Mais Resilientes
Diante desse cenário, especialistas apontam medidas cruciais para mitigar os efeitos das ilhas de calor em Manaus. “É urgente que o poder público comece a reverter isso porque nós vamos ter cada vez mais ondas de calor, e elas serão mais intensas”, alerta Luciana Gatti. Dados do Inmet indicam que a arborização planejada pode reduzir a temperatura ambiente em até 4°C nos pontos mais críticos.
As principais estratégias incluem:
- Arborização massiva: O plantio de árvores em calçadas, quintais e canteiros centrais gera sombreamento e resfriamento por evapotranspiração, além de melhorar a qualidade do ar.
- Uso de superfícies claras: Adoção de tintas e materiais refletivos em telhados e fachadas ajuda a refletir a radiação solar, evitando que o calor fique retido nas moradias. A pesquisadora Gatti sugere pintar casas de branco, especialmente os telhados, para refletir a energia solar.
- Proteção de igarapés e florestas urbanas: A preservação de fragmentos vegetais é vital, pois funcionam como ‘janelas de respiro’, auxiliando na circulação das brisas dos rios para o interior dos bairros.
Essas intervenções, tanto estruturais quanto atitudes simples nas moradias, são aliadas imediatas para aliviar o calor e construir uma Manaus mais adaptada e resiliente aos desafios climáticos futuros.
Para aprofundar-se nos estudos sobre o clima e o meio ambiente na Amazônia, visite o site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
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Fonte: g1.globo.com