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Lei Maria da Penha: mulher de Manaus supera violência e inspira esperança após 20 anos da legislação

Lei Maria da Penha: mulher de Manaus supera violência e inspira esperança após 20 anos da legislação
Reprodução G1

A Lei Maria da Penha, um marco na proteção dos direitos das mulheres no Brasil, completa 20 anos em 2026. Duas décadas após sua promulgação, a legislação continua a ser um pilar fundamental na luta contra a violência doméstica e familiar, oferecendo amparo legal e mecanismos de defesa para milhares de vítimas. Em Manaus, a história de Eriberta da Silva Gomes, técnica de enfermagem, é um testemunho pungente da realidade enfrentada por muitas mulheres e da força necessária para romper o ciclo da violência.

A jornada de Eriberta, que se viu à beira do desespero, ressoa com a experiência de inúmeras brasileiras. Sua narrativa não apenas ilustra a importância da lei, mas também a resiliência humana diante de adversidades extremas, transformando dor em um caminho de superação e inspiração para outras vítimas que buscam um novo começo.

A Luta Silenciosa e a Decisão de Romper o Ciclo

O ano de 2018 marcou o início de um período sombrio na vida de Eriberta da Silva Gomes. As agressões, perpetradas pelo então marido, ocorriam de forma cruel e inesperada, principalmente durante a madrugada. Após discussões diurnas, a violência se manifestava enquanto ela dormia, com golpes na cabeça que a deixavam em estado de choque e vulnerabilidade.

“Geralmente as agressões aconteciam quando a gente discutia durante o dia. A gente ia dormir e, quando eu estava dormindo, ele batia na minha cabeça do nada. Ao invés de resolver quando estava todo mundo acordado, ele deixava para fazer quando a gente já tinha ido dormir”, relembra Eriberta, destacando a covardia e a premeditação dos atos.

Após cerca de dois anos convivendo com esse terror silencioso, Eriberta reuniu coragem para buscar ajuda. Em 2020, ela formalizou a denúncia na Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM) e conseguiu uma medida protetiva de urgência. Esse passo crucial, muitas vezes o mais difícil para as vítimas, representou um ponto de virada em sua luta pela sobrevivência e dignidade.

Dados da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, do Ministério das Mulheres, revelam que quase 70% das denúncias registradas em 2025 apontaram que a violência ocorreu dentro de casa. Esse cenário sublinha a complexidade da violência doméstica, onde o agressor frequentemente é alguém que, para o mundo exterior, aparenta uma vida comum e acima de qualquer suspeita. “Ele era completamente fora de qualquer suspeita. Não bebia, praticava esporte de luta, tudo certo até certo ponto”, descreve Eriberta, evidenciando como a fachada social pode mascarar a brutalidade doméstica.

O Impacto nos Filhos e a Batalha pela Saída

Além do medo pelas próprias agressões, a maior preocupação de Eriberta eram seus dois filhos, que testemunhavam o horror da violência. As crianças acordavam chorando, assustadas com os barulhos e a confusão, vivenciando um trauma que deixaria marcas profundas. Essa realidade impulsionou Eriberta a encontrar uma força interior ainda maior.

“Meus dois filhos acordavam chorando, ouvindo os barulhos e a confusão. Eu tive que criar forças e sair daquela situação porque poderia acabar em algo pior do que agressão, e eu poderia não estar aqui para contar esta história”, relata, sublinhando a urgência de sua decisão.

Mesmo com a medida protetiva em mãos, a saída do agressor da residência não foi simples. O ex-companheiro se recusava a deixar o imóvel, alegando que a casa era sua. A situação só foi resolvida com a intervenção de um oficial de Justiça, que determinou a saída do agressor, garantindo a segurança de Eriberta e seus filhos.

Com o apoio da rede de proteção às mulheres, Eriberta e seus filhos passaram a receber acompanhamento psicológico, um suporte essencial para processar o trauma. “Na época eu tinha o apoio da rede da mulher. Meus filhos receberam atendimento psicológico, eu também tive acompanhamento e orientação para que eles conseguissem colocar tudo aquilo para fora. Até hoje minha filha lembra daquela época, mas não com a mesma dor que sentia”, afirma, demonstrando a importância do suporte profissional na recuperação.

A Rede de Apoio e a Reconstrução da Vida

A rede de atendimento às mulheres vítimas de violência é um pilar fundamental para a reconstrução de vidas. Em Manaus, o Centro Estadual de Referência e Apoio à Mulher (Cream) oferece um acolhimento multidisciplinar. Localizado na Avenida Presidente Kennedy, 399, no bairro Educandos, o Cream conta com assistentes sociais, psicólogos, pedagogos e profissionais de apoio administrativo, todos direcionados para acolher as vítimas e orientá-las sobre seus direitos e os caminhos para a superação.

Anos após os eventos traumáticos, Eriberta consegue olhar para o passado com uma nova perspectiva. “Hoje, olhando para trás, eu vejo que foi um livramento de Deus, literalmente. Eu já me via morta, porque as agressões aconteciam e eu sempre tentava me defender por mim e pelas crianças. A gente nunca sabe onde aquilo vai parar”, reflete, com a sabedoria de quem sobreviveu.

Ela também faz um alerta crucial sobre o preconceito que muitas vítimas enfrentam. “Sempre existe uma discriminação. As pessoas dizem que a mulher está naquela situação porque quer, que ela é culpada. Mas não é assim”, destaca, combatendo a estigmatização e reforçando a necessidade de empatia e apoio.

Atualmente, Eriberta é uma mulher em plena ascensão: técnica de enfermagem, massoterapeuta e em fase de conclusão de uma graduação. Seu próximo passo é criar um grupo de apoio para encorajar outras mulheres a romperem o ciclo da violência, compartilhando sua experiência e oferecendo um farol de esperança. “Eu sempre digo para terem fé, independentemente da religião, para não desistirem, procurarem ajuda e reunirem forças para buscar as pessoas certas. É um dia após o outro”, aconselha.

Onde Buscar Ajuda: Canais Essenciais de Proteção

Para mulheres em situação de violência, buscar ajuda é o primeiro e mais importante passo. Existem diversos canais de apoio e proteção disponíveis:

  • Delegacias Especializadas em Crimes Contra a Mulher (DECCM): Locais específicos para o registro de denúncias e solicitação de medidas protetivas. Em Manaus, as delegacias estão localizadas na Avenida Mário Ypiranga, 3395, Parque 10 de novembro, Zona Centro-Sul; na Rua Desembargador Filismo Soares, Colônia Oliveira Machado, Zona Sul; e na Avenida Nossa Senhora da Conceição, Cidade de Deus, Zona Leste.
  • Polícia Militar (190): Para situações de emergência e flagrante de agressão.
  • Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180: Serviço gratuito e confidencial, disponível 24 horas por dia em todo o país, que oferece orientação e acolhimento.

A história de Eriberta é um lembrete poderoso de que a Lei Maria da Penha não é apenas um conjunto de artigos, mas uma ferramenta viva que, aliada à coragem das vítimas e ao apoio da sociedade, pode transformar destinos. O Amazonas segue comprometido em trazer informações relevantes, atuais e contextualizadas sobre temas que impactam diretamente a vida de nossa comunidade. Continue acompanhando nosso portal para análises aprofundadas e reportagens que ampliam a compreensão sobre os desafios e as conquistas sociais.

Fonte: g1.globo.com

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