A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nesta sexta-feira (9) uma pesquisa que acende um alerta sobre o cenário econômico do país: os juros elevados continuam sendo o principal obstáculo para as empresas do setor industrial acessarem crédito. O levantamento da CNI, que ouviu mais de 1.700 empresas em todo o Brasil, revela um panorama desafiador para a expansão e a modernização da indústria nacional, impactando diretamente a capacidade de investimento e, consequentemente, a geração de empregos e renda.
Os dados da Sondagem Especial 107 – Condições de Acesso ao Crédito em 2026, que analisou o período entre fevereiro e julho, mostram que a percepção dos empresários sobre o custo do dinheiro permanece como um entrave crítico. Para as operações de curto e médio prazo, 76% das empresas que enfrentaram dificuldades para obter financiamento apontaram as taxas elevadas como uma das barreiras primordiais. No caso do crédito de longo prazo, com vencimento superior a cinco anos, o percentual de menções aos juros altos foi de 69%.
Juros Elevados Persistem como Entrave Principal
Apesar de uma leve redução em comparação com o ano anterior – em 2025, os juros eram apontados por 80% das empresas em operações de curto/médio prazo e 71% nas de longo prazo –, a persistência dessas taxas em patamares elevados continua a frear o ímpeto industrial. Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI, ressalta que a diminuição da taxa básica de juros, a Selic, leva tempo para se traduzir em um custo de crédito mais acessível para as empresas, que ainda se deparam com condições de empréstimo bastante onerosas.
Esse cenário de juros altos impacta diretamente a capacidade das indústrias de realizar investimentos estratégicos, como a compra de novas máquinas e equipamentos, a expansão de suas instalações ou a inovação em processos produtivos. Sem acesso a crédito com custos razoáveis, muitas empresas adiam projetos importantes, o que pode comprometer sua competitividade no mercado e a capacidade de crescimento a longo prazo. A dificuldade em obter financiamento também pode levar à estagnação, afetando a produtividade e a capacidade de resposta às demandas do mercado.
Além do Custo: Garantias e Burocracia Agravam o Cenário
A pesquisa da CNI não aponta apenas os juros como barreira. Outros fatores também contribuem para a complexidade do acesso ao crédito. As exigências de garantias reais, por exemplo, surgem como o segundo principal entrave, sendo citadas por 33,4% das empresas nas operações de curto e médio prazo e por 31,5% no crédito de longo prazo. Essa demanda por bens como imóveis ou equipamentos para assegurar o empréstimo pode ser um desafio intransponível, especialmente para empresas de menor porte que possuem patrimônio limitado.
A burocracia, por sua vez, foi mencionada por 13,6% dos empresários em operações de curto e médio prazo, adicionando uma camada de complexidade e morosidade ao processo. Para o crédito de longo prazo, a insuficiência do prazo de carência, citada por 18,9%, também se mostra um problema relevante. Isso significa que as empresas precisam começar a pagar o empréstimo muito cedo, antes mesmo que o investimento comece a gerar retorno, pressionando o fluxo de caixa e aumentando o risco financeiro.
Cresce a Frustração na Busca por Financiamento
Os números da sondagem revelam ainda uma alta taxa de empresas que sequer tentaram buscar crédito, indicando uma possível desmotivação diante das dificuldades. Quase metade das indústrias (49,9%) não buscou ou renovou crédito de curto ou médio prazo, e 54% não procurou financiamento de longo prazo. Entre as que buscaram, a taxa de frustração aumentou significativamente em relação a 2025: 24,7% para curto/médio prazo (contra 20% no ano anterior) e 37,2% para longo prazo (contra 33%).
As pequenas e médias empresas são as mais afetadas por essa realidade. No crédito de longo prazo, por exemplo, 48,2% das pequenas e 48,1% das médias empresas não conseguiram obter os recursos procurados, um contraste marcante com as grandes empresas, onde o índice de insucesso foi de 29,9%. Essa disparidade evidencia a necessidade de políticas e linhas de crédito mais adequadas às especificidades e fragilidades dos negócios de menor porte, que são fundamentais para a economia.
Capital de Giro com Crédito de Longo Prazo: Um Sinal de Alerta
Outro ponto de atenção levantado pela pesquisa é o uso de linhas de crédito de longo prazo para financiar despesas do dia a dia, como capital de giro. Entre as empresas que buscaram ou contrataram esse tipo de crédito, 28,7% indicaram o capital de giro como principal finalidade, superando os percentuais para investimentos em máquinas e equipamentos (23,6%) e construção ou instalações (11,6%).
Essa prática, segundo a CNI, é preocupante, pois linhas de longo prazo são tradicionalmente destinadas a investimentos estruturais, enquanto despesas operacionais deveriam ser cobertas por operações de menor duração. O uso inadequado dessas linhas pode indicar uma dificuldade crônica de caixa e uma incapacidade de financiar o próprio ciclo produtivo, o que pode comprometer a saúde financeira das empresas a médio e longo prazo.
Redução de Custos Tributários e Administrativos como Solução
Para as empresas, a principal medida para facilitar o acesso ao crédito seria a redução dos custos tributários e administrativos. Essa alternativa foi apontada por 38,4% dos entrevistados para operações de curto e médio prazo e por 31,2% para as de longo prazo. A simplificação do ambiente de negócios e a diminuição da carga que incide sobre as empresas poderiam liberar recursos e tornar o crédito mais atrativo, impulsionando a atividade industrial.
A discussão sobre o acesso ao crédito para a indústria é crucial para o desenvolvimento econômico do Brasil. Compreender as barreiras e as necessidades do setor é o primeiro passo para a formulação de políticas públicas eficazes que possam estimular o investimento, a inovação e a criação de empregos. Acompanhe O Amazonas para mais análises aprofundadas sobre economia, política e os temas que impactam a sua vida e o futuro do país, sempre com informação relevante e contextualizada.