PUBLICIDADE

Amapá desenvolve mandioca resistente à vassoura-de-bruxa em estudo promissor

Amapá desenvolve mandioca resistente à vassoura-de-bruxa em estudo promissor
1 de 3 Propriedade de Itaubal no Amapá recebe a pesquisa do Iepa — Foto: Thiago Nunes/Rede Amazônica

Uma pesquisa inovadora conduzida pelo Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa) está trazendo novas esperanças para os agricultores locais. O estudo foca no desenvolvimento de uma variedade de mandioca capaz de resistir e conviver com a devastadora praga conhecida como vassoura-de-bruxa, que tem ameaçado as lavouras em quase todo o estado. Os resultados iniciais, observados em uma propriedade rural no município de Itaubal, são promissores e indicam um caminho para a sustentabilidade da produção.

O trabalho, liderado pelo pesquisador Marcelo Carim, do Iepa, durante 15 meses, busca criar condições para que a planta de mandioca não apenas tolere o fungo causador da doença, mas também consiga se desenvolver de forma saudável, sem apresentar sintomas visíveis de infecção. Essa abordagem representa um avanço significativo, especialmente considerando a rápida disseminação da praga na região.

Avanço na Resiliência da Mandioca Jurará

A pesquisa do Iepa concentra-se na indução de resistência da variedade Jurará, uma escolha estratégica devido à sua boa aceitação comercial e facilidade de processamento. Na propriedade do produtor Douglas Dutra, em Itaubal, as plantas de mandioca Jurará têm crescido vigorosas, mesmo estando a poucos metros de áreas severamente contaminadas pela vassoura-de-bruxa. Essa proximidade, sem a manifestação da doença, é um dos indicadores mais encorajadores do estudo.

O produtor Douglas Dutra relata que, apesar da presença da doença em lavouras vizinhas, sua área tem apresentado bons resultados, sem sintomas visíveis. O estudo também observou um fenômeno chamado “rebrota compensatória” em plantações previamente afetadas. Nesses casos, a planta, após ser atingida pela praga, realiza uma espécie de “reset” fisiológico, lançando novos ramos que se mostram altamente vigorosos e, possivelmente, tolerantes à doença.

A metodologia desenvolvida pelo Iepa envolve um manejo integrado que abrange o solo, a biosfera, a rizosfera e a microbiota, além do uso de compostos biológicos. O Dr. Marcelo Carim explica que o objetivo é criar um ambiente favorável e garantir que a planta esteja bem nutrida, fortalecendo seus mecanismos naturais de defesa contra a doença. Essa abordagem se baseia em estudos anteriores, como os realizados na década de 1990 para combater o mal-do-Panamá, uma praga que afetava as raízes da banana.

Desafios da Praga e Estratégias de Combate

A praga vassoura-de-bruxa da mandioca representa uma séria ameaça à agricultura amapaense. Segundo dados da Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária do Amapá (Diagro), a doença já foi confirmada em 15 dos 16 municípios do estado, com Vitória do Jari sendo o único ainda sem registro oficial. A praga foi registrada no Brasil em agosto de 2024, quando surgiu pela primeira vez em plantações e terras indígenas do Amapá, na região do Oiapoque. Seus impactos são significativos, reduzindo a produtividade das lavouras e comprometendo a qualidade dos produtos destinados ao consumo e à comercialização.

A estratégia do Iepa de indução de resistência difere de métodos convencionais ao focar na capacidade intrínseca da planta de se defender. Em vez de apenas buscar a erradicação do fungo, a pesquisa visa criar um ecossistema onde a mandioca possa conviver com a praga sem sofrer os efeitos devastadores. A correção do solo, por exemplo, é um passo fundamental para criar um ambiente que promova o desenvolvimento saudável da planta, tornando-a mais resiliente.

Da Lavoura ao Mercado: Superando Obstáculos

Apesar dos resultados promissores na pesquisa, os agricultores ainda enfrentam desafios na comercialização da mandioca. Douglas Dutra, por exemplo, colheu cerca de 25 toneladas da variedade Jurará em maio, com o apoio dos estudos do Iepa, mas encontrou dificuldades para vender sua produção. Essa realidade o levou a reduzir o plantio, não por causa da doença, mas pela incerteza do mercado e a demora no recebimento pelos produtos vendidos.

A dificuldade de escoamento da produção e a inadimplência de compradores são fatores que impactam diretamente a rentabilidade dos agricultores. Douglas explica que, ao diminuir a produção, consegue ter mais controle sobre a venda e escolher os clientes, minimizando os riscos financeiros. Esse cenário ressalta a importância de políticas de apoio à comercialização, que complementem os avanços tecnológicos na produção.

Em sua nova fase, a pesquisa do Iepa iniciará testes com pacotes biológicos, que prometem aumentar ainda mais a produtividade e a resistência das plantas. O Dr. Marcelo Carim menciona o PF55, uma bactéria saprofítica que atua no solo, nas raízes e no sistema da planta, facilitando a absorção de nutrientes. Esses novos testes buscam validar a eficácia desses produtos em larga escala, consolidando a indução de resistência como uma solução viável para a cultura da mandioca no Amapá.

Acompanhe O Amazonas para ficar por dentro das últimas notícias e análises aprofundadas sobre agricultura, ciência e os desafios que moldam a realidade da nossa região. Nosso compromisso é trazer informação relevante e contextualizada, mantendo você sempre bem informado sobre os temas que realmente importam.

Fonte: g1.globo.com

Leia mais

PUBLICIDADE