O limão, fruta essencial na culinária e no dia a dia dos brasileiros, tem apresentado um aumento significativo em seu preço, surpreendendo consumidores e especialistas. Mesmo em um período de entressafra, a cotação do produto está bem acima da média histórica, impulsionada por uma combinação de fatores climáticos adversos e dinâmicas de mercado que afetam a produção e a oferta.
A volatilidade é uma característica marcante no histórico de preços do limão, conforme observa Renato Garcia Ribeiro, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq). Ele destaca que o momento atual é particularmente precário, com condições climáticas atípicas, como o excesso de chuvas no início do ano, que impactaram diretamente a florada das árvores e, consequentemente, a colheita.
Fatores climáticos e a escassez da fruta
A principal razão para a elevação dos custos reside na baixa produção. O excesso de chuvas no começo do ano, somado a um aumento de dias nublados, não apenas reduziu a quantidade de frutos, mas também afetou sua qualidade comercializável, resultando em frutas mais claras e dificultando o processo de colheita. Essa condição climática desfavorável foi decisiva para a queda na oferta no início da entressafra, em comparação com anos anteriores.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) detalha que a florada mais importante para abastecer o mercado no segundo semestre, ocorrida em julho, foi severamente prejudicada por chuvas acima da média nas principais regiões produtoras. Esse cenário só deve gerar um volume relevante de frutas a partir de meados de novembro, postergando a normalização da oferta. Além disso, o excesso de umidade comprometeu o pegamento de frutos de floradas anteriores, agravando a escassez esperada para setembro e outubro.
As áreas mais afetadas por essas condições climáticas foram os municípios de Matão e Bebedouro, no cinturão cítrico paulista, que juntos concentram aproximadamente 68% da área de produção de limões e limas do país. Outras regiões importantes, como Limeira, Votuporanga e São José do Rio Preto, também sentiram os impactos. Do total produzido, cerca de 88% corresponde ao limão tahiti, o mais consumido no Brasil.
Disparada nos preços: do produtor ao consumidor final
Os números refletem a severidade da situação. Levantamento da Conab indica que, no cinturão cítrico paulista, o preço médio pago ao produtor pelo limão tahiti em uma caixa de 27,2 kg saltou de R$ 32,10 em junho para R$ 55,60 em julho, atingindo R$ 104,78 em agosto. Esse aumento acumulado representa uma impressionante alta de 226,4% no período. Comparado a agosto do ano anterior, o preço atual é 71% maior.
A escalada de preços não se restringiu ao campo. No atacado, o maior entreposto do país, o Ceagesp, em São Paulo, registrou um aumento de 374%. O quilo do limão, que custava R$ 1,82 no início da entressafra em maio, alcançou R$ 8,62 no pico de setembro. Na CeasaMinas, em Belo Horizonte, a variação foi de 240%, passando de R$ 2,50 para R$ 8,50.
Além dos fatores climáticos, a competição entre o mercado interno e externo também contribui para a alta. O Brasil exporta cerca de 11% de sua safra, principalmente para a Europa. A essa dinâmica, soma-se o aumento da demanda interna, impulsionado pelo calor intenso registrado em agosto e setembro, que naturalmente eleva o consumo de bebidas e pratos que levam a fruta.
Perspectivas para o mercado e o impacto do clima futuro
A sazonalidade do mercado de limão geralmente segue um padrão: pico da safra em janeiro e fevereiro, queda e estabilidade em março e abril, entrada na entressafra de maio a setembro, e início da nova safra em meados de setembro. A expectativa é que a normalização dos preços comece a ocorrer no final do ano, com a entrada da nova safra no mercado.
Embora os preços no Ceagesp tenham começado a apresentar uma leve diminuição na última semana, ainda não é possível garantir que essa tendência de queda se manterá de forma consistente. O pesquisador Renato Ribeiro, do Cepea/Esalq, alerta que o impacto maior foi no volume de produção e que as condições climáticas adversas podem se estender para o próximo ano.
Há uma preocupação adicional para a próxima safra, pois um cenário de El Niño forte no início de 2027 pode trazer calor excessivo e déficit hídrico, estressando as plantas e afetando a florada no final da primavera e início do verão. Apesar disso, técnicos da Conab avaliam que o El Niño teve um impacto limitado na produção de limão deste ano, contribuindo para a configuração atual, mas não sendo o fator principal das alterações observadas no mercado. Para mais informações sobre o cenário econômico e agrícola, acompanhe as análises da Agência Brasil.
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