O cenário do agronegócio brasileiro testemunhou uma significativa alteração em seu ranking de maiores produtores agrícolas, com o município de Sorriso, no norte de Mato Grosso, conhecido como a “capital do agronegócio”, perdendo sua tradicional posição de liderança. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que a cidade foi desbancada por Sapezal, também em Mato Grosso, e por São Desidério, na Bahia, marcando uma nova era na produção agrícola nacional.
Essa mudança não reflete apenas uma variação no desempenho das lavouras, mas está intrinsecamente ligada a uma reconfiguração geográfica no estado de Mato Grosso. A criação do município de Boa Esperança do Norte, a partir de territórios que antes pertenciam a Sorriso, foi um fator determinante para essa nova realidade, impactando diretamente a área plantada e, consequentemente, o valor da produção local.
A Reconfiguração do Mapa Agrícola Brasileiro
A Produção Agrícola Municipal (PAM), divulgada pelo IBGE, é o levantamento que atesta essa transformação. Em 2024, Sorriso ostentava a liderança com um valor de produção de R$ 7,2 bilhões, superando São Desidério (R$ 6,6 bilhões) e Sapezal (R$ 5,9 bilhões). No entanto, em 2025, o panorama se inverteu. Embora a produção agrícola de Sorriso tenha crescido para R$ 8,16 bilhões, ela foi superada por Sapezal, que alcançou R$ 8,59 bilhões, e por São Desidério, com R$ 8,22 bilhões.
O valor da produção, conforme explica o IBGE, é uma métrica que combina o volume físico produzido com os preços de venda praticados no ano da pesquisa, sem correção inflacionária. Esse indicador é crucial para entender a dinâmica econômica do setor. A ascensão de Sapezal é notável, com um crescimento de 46,6% no valor de sua produção agrícola, impulsionado principalmente pelo algodão herbáceo, seu produto carro-chefe. São Desidério também apresentou um crescimento robusto de 23,7%.
O Impacto da Nova Divisão Territorial
A principal razão por trás da perda da liderança de Sorriso reside na criação de Boa Esperança do Norte, o mais novo município do Brasil. Esta nova cidade foi constituída a partir de áreas que anteriormente faziam parte de Sorriso e Nova Ubiratã, resultando em uma diminuição de 9,3% na área plantada de Sorriso. Essa redução teve um impacto direto nas lavouras de soja, algodão e feijão, culturas essenciais para a economia local.
A história de Boa Esperança do Norte é um exemplo da complexidade da gestão territorial brasileira. Criada por lei estadual em 2000, a efetivação do município enfrentou um longo processo judicial. Após uma decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso que apontou a criação como institucional, a Assembleia Legislativa do estado recorreu. Somente em outubro de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a criação, e a instalação oficial ocorreu em 1º de janeiro de 2025, justamente o ano em que Sorriso deixou de ser a “capital do agro”. O novo município tem uma população estimada em 5,9 mil pessoas, enquanto Sorriso possui cerca de 124,7 mil habitantes.
Sapezal Emerge como Novo Líder
Com a reconfiguração do mapa, a liderança em valor de produção agrícola permanece em Mato Grosso, agora com Sapezal no topo. Localizada a cerca de 500 quilômetros a noroeste de Cuiabá, a capital mato-grossense, Sapezal tem uma população estimada em 32,5 mil pessoas e consolidou sua posição graças a um desempenho excepcional. Dos R$ 8,59 bilhões de sua produção agrícola, impressionantes 60%, ou R$ 5,13 bilhões, vêm do cultivo do algodão, com uma produção de 1,2 milhão de toneladas em 2025.
Além do algodão, Sapezal também registrou avanços significativos no valor da produção de soja, com crescimento de 51,4%, gerando R$ 2,8 bilhões, e de milho, com aumento de 58,1%, totalizando R$ 656,9 milhões. Esse crescimento diversificado e robusto demonstra a força e a adaptabilidade do agronegócio no município.
Mato Grosso Mantém Hegemonia no Agronegócio
Apesar das mudanças no ranking individual, Mato Grosso continua sendo o principal estado em valor da produção agrícola no Brasil, com um total de R$ 165,6 bilhões. O estado abriga cinco dos dez municípios brasileiros com maior valor de produção, evidenciando sua importância estratégica para a economia nacional. A força do agronegócio mato-grossense é inegável, com a soja e o algodão dominando a pauta de produção dos principais municípios.
Confira a lista das dez cidades com maior valor da produção agrícola e o principal produto de cada, segundo o IBGE:
- Sapezal (MT): R$ 8,59 bilhões – algodão
- São Desidério (BA): R$ 8,22 bilhões – soja
- Sorriso (MT): R$ 8,16 bilhões – soja
- Campo Novo do Parecis (MT): R$ 7,87 bilhões – soja
- Formosa do Rio Preto (BA): R$ 5,89 bilhões – soja
- Diamantino (MT): R$ 5,82 bilhões – soja
- Rio Verde (GO): R$ 5,69 bilhões – soja
- Cristalina (GO): R$ 5,45 bilhões – soja
- Nova Mutum (MT): R$ 5,39 bilhões – soja
- Jataí (GO): R$ 4,84 bilhões – soja
A dinâmica do agronegócio brasileiro é complexa e multifacetada, influenciada por fatores que vão desde o desempenho das lavouras até as decisões político-administrativas que redefinem fronteiras. A ascensão de Sapezal e São Desidério, e a reconfiguração de Sorriso, mostram como o setor está em constante evolução, exigindo atenção contínua para entender seus impactos econômicos e sociais. Para mais detalhes sobre o panorama da produção agrícola brasileira, você pode consultar o levantamento completo do IBGE sobre o valor da produção agrícola de 2025.
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