Um forte terremoto de magnitude 7,4, que atingiu a Colômbia nesta segunda-feira (10), teve seus efeitos percebidos a mais de 2 mil quilômetros de distância, na capital amazonense. Moradores de Manaus registraram vídeos de lustres, persianas e outros objetos balançando, especialmente em andares mais altos de edifícios, gerando apreensão e a evacuação de alguns prédios. O fenômeno, embora incomum para a região, tem explicações geológicas e estruturais que ajudam a compreender como um tremor tão distante pode ser sentido na Amazônia.
A repercussão em Manaus foi imediata, com relatos e vídeos circulando nas redes sociais, mostrando a surpresa dos amazonenses diante de um evento sísmico. Equipes de emergência, como o Corpo de Bombeiros, receberam dezenas de chamados, evidenciando a preocupação da população. Para entender a conexão entre o epicentro colombiano e a percepção dos abalos em Manaus, é preciso mergulhar nas características geológicas de ambas as regiões.
A complexa geologia por trás da propagação sísmica
A capacidade de um terremoto na Colômbia ser sentido em Manaus está intrinsecamente ligada à geologia da região do epicentro. Segundo Adnilson Cruz da Silva, mestre em geologia e especialista em engenharia geotécnica, a Colômbia está localizada em uma zona de confluência de placas tectônicas, especificamente entre a Placa de Nazca e a Placa Sul-Americana. Essa interação é responsável pela intensa atividade sísmica na região andina.
O movimento dessas placas gera ondas sísmicas que se propagam através do embasamento rochoso, a camada sólida de rocha que se encontra abaixo do solo e dos sedimentos. A rigidez e a continuidade desse embasamento permitem que as ondas viajem por longas distâncias com menor atenuação. A profundidade do epicentro, que foi de 110 km em San José del Palmar, também contribui para que as ondas se espalhem por uma área maior antes de atingir a superfície, alcançando locais distantes como Manaus.
O subsolo de Manaus e a amplificação dos tremores
As características do subsolo de Manaus desempenham um papel crucial na percepção dos tremores. A capital amazonense está situada em uma região de bacia sedimentar, predominantemente na Formação Alter do Chão. Essa formação é composta por camadas profundas de sedimentos, que podem atingir mais de um quilômetro e meio de profundidade em algumas áreas da cidade.
Embora o embasamento rochoso transmita as ondas sísmicas a longas distâncias, o solo sedimentar de Manaus pode, paradoxalmente, amplificar a percepção do tremor. Em solos moles e profundos, as ondas sísmicas tendem a ter sua amplitude aumentada e sua velocidade diminuída, resultando em um balanço mais pronunciado na superfície. É como se o solo funcionasse como um gel, que, ao ser agitado, movimenta-se de forma mais visível do que uma superfície rochosa.
Ressonância em edifícios altos: movimento seguro ou risco?
Um dos aspectos mais notáveis do evento foi a maior intensidade do tremor percebida por moradores em andares superiores de edifícios. O especialista Adnilson Cruz da Silva explica que esse fenômeno é conhecido como ressonância. Prédios altos, a partir do oitavo andar, por exemplo, podem funcionar como pêndulos invertidos. Quando as ondas sísmicas chegam, essas estruturas começam a oscilar em sua frequência natural, amplificando o movimento.
É importante ressaltar que, na maioria dos casos, esse balanço por ressonância é um movimento elástico e seguro. As estruturas são projetadas para suportar certas deformações e tendem a retornar à sua posição original sem sofrer danos permanentes ou rupturas. A percepção do balanço, embora assustadora, não indica necessariamente um risco iminente de colapso, especialmente quando se trata de tremores distantes e de intensidade atenuada.
Segurança estrutural: normas brasileiras e a resistência dos prédios
Apesar de Manaus não estar em uma zona de alta atividade sísmica, os edifícios da cidade são construídos com critérios de segurança que, indiretamente, conferem certa resistência a tremores. O Brasil possui normas técnicas rigorosas, como a NBR 6123, que estabelece os critérios para a ação dos ventos em edificações. Essa norma exige que os projetos considerem a resistência a fortes ventanias, que também provocam movimentações e balanços nas estruturas.
Dessa forma, os prédios novos em Manaus são projetados para suportar forças laterais significativas. Embora o objetivo principal seja a resistência ao vento, essa capacidade de absorver e dissipar energia de movimentação contribui para que as estruturas sejam mais resilientes a abalos sísmicos de baixa intensidade, como os sentidos a partir de um epicentro distante. Portanto, o risco de danos estruturais graves em Manaus devido a um terremoto na Colômbia é considerado muito baixo.
O impacto devastador do terremoto na Colômbia
Enquanto Manaus sentia apenas a ressonância de um evento distante, a Colômbia enfrentava a devastação. O terremoto de magnitude 7,4, com epicentro em San José del Palmar, causou a morte de 111 pessoas e deixou 87 feridas. O tremor provocou o colapso de 61 edifícios e 37 casas, com equipes de emergência trabalhando intensamente na busca por sobreviventes sob os escombros. Uma réplica de magnitude 5.0 foi registrada cerca de uma hora depois, intensificando o cenário de destruição.
Este foi o terremoto mais forte registrado na Colômbia na última década, segundo o Serviço Geológico do país, e serve como um lembrete da força implacável da natureza e da importância de compreender os fenômenos geológicos que moldam nosso planeta. Para mais informações sobre eventos naturais, geologia e as últimas notícias que impactam a região, continue acompanhando as análises aprofundadas e a cobertura completa de O Amazonas, seu portal de informação relevante e contextualizada.
Fonte: g1.globo.com