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Pioneirismo paralímpico: família celebra legado da primeira medalha do Brasil em Toronto 1976

Pioneirismo paralímpico: família celebra legado da primeira medalha do Brasil em Toronto 1976
© Alessandra Cabral/CPB

Em um momento de celebração e reconhecimento, familiares de Robson Sampaio de Almeida e Luiz Carlos da Costa se reuniram para honrar a memória e o legado dos atletas que conquistaram a primeira medalha paralímpica do Brasil. O feito histórico, uma prata no lawn bowls (modalidade semelhante à bocha, já extinta), ocorreu em 6 de agosto de 1976, durante os Jogos Paralímpicos de Toronto, no Canadá. A homenagem simbólica, com as medalhas expostas no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, resgata uma parte fundamental da trajetória do esporte adaptado nacional, que hoje posiciona o Brasil entre as cinco potências mundiais, como visto na Paralimpíada de Paris 2024, com um total de 462 pódios.

A conquista de Robson e Luiz Carlos não foi apenas um marco esportivo; ela representou o início de uma jornada de luta e superação que pavimentou o caminho para as gerações futuras de paratletas. A história desses pioneiros, muitas vezes esquecida, é agora trazida à luz por aqueles que testemunharam de perto o esforço e a dedicação necessários para colocar o Brasil no mapa do paradesporto internacional.

A prata pioneira em Toronto 1976

Foi em um dia 6 de agosto de 1976 que Robson Sampaio de Almeida e Luiz Carlos da Costa, carinhosamente conhecido como “Curtinho”, gravaram seus nomes na história do esporte brasileiro. A dupla conquistou a medalha de prata no lawn bowls, uma modalidade que, embora pouco conhecida hoje, exigia precisão e estratégia. Naquela época, os atletas podiam competir em diversas modalidades, e Robson e Luiz Carlos, que haviam viajado para Toronto para disputar o basquete em cadeira de rodas, aceitaram o desafio do lawn bowls.

A performance no Etobicoke Lawn Bowling Club garantiu o segundo lugar para o Brasil, atrás apenas dos australianos Eric Magennis e Bruce Thwaite, com os britânicos David Avis e Michael McCreadie completando o pódio. Essa medalha inaugural abriu a contagem de pódios brasileiros em Paralimpíadas, um número que hoje impressiona e reflete o crescimento exponencial do paradesporto no país.

Robson Sampaio de Almeida: o legado de um visionário e o Clube do Otimismo

A história de Robson Sampaio de Almeida é intrinsecamente ligada à fundação do Clube do Otimismo, no Rio de Janeiro, em 1958. Paraplégico após um acidente de trabalho nos Estados Unidos, onde teve a coluna comprimida por um rolo em uma fábrica de papéis, Robson utilizou a indenização para criar uma instituição que oferecia reabilitação e apoio a pessoas com deficiência sem recursos. Sua sobrinha, Noêmia Almeida, criada como filha por ele, destaca a importância de seu legado.

“É o resgate de uma história que não era contada. Se hoje temos tudo isso [no esporte paralímpico], com televisão, entrevistas, esse momento de comemoração, é porque alguém lá no passado lutou para que isso acontecesse”, afirmou Noêmia à reportagem da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Ela recorda os desafios da época, quando o paradesporto não era uma política pública e Robson precisava “bater de porta em porta” para conseguir apoio para uniformes, passagens e a representação do Brasil em competições internacionais. Robson, falecido em 1987, foi um verdadeiro pioneiro, não só no esporte, mas na defesa da inclusão e da capacidade das pessoas com deficiência.

A dupla dinâmica: amizade e conquista no lawn bowls

Luiz Carlos da Costa, o “Curtinho”, foi um dos atendidos pelo Clube do Otimismo, onde estabeleceu uma profunda amizade e parceria com Robson. A dupla era inseparável, tanto nas quadras de basquete em cadeira de rodas, onde Robson foi o primeiro cestinha brasileiro, quanto nos desafios inesperados, como o lawn bowls. “Eles sempre formaram essa dupla dinâmica no esporte”, lembrou Paulo Robson de Almeida, sobrinho de Robson, em entrevista à EBC.

Paulo Robson também destacou o papel de “escudeiro” de Luiz Carlos, que, além de atleta, era um habilidoso técnico na recuperação de rodas de cadeiras, prestando apoio técnico crucial nas disputas internacionais. A anedota de que Robson já tinha prática com o boliche tradicional, enquanto Luiz Carlos se destacou “de primeira” no lawn bowls, ilustra a versatilidade e o espírito de equipe que os levou ao pódio.

A estruturação do paradesporto brasileiro: de Toronto ao CT Paralímpico

A medalha de 1976 foi um ponto de partida para uma transformação significativa no movimento paralímpico brasileiro. O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) foi fundado em 1995 e, três anos depois, foi integrado ao Sistema Nacional do Desporto pela Lei 9.615, a Lei Pelé. Essa medida abriu caminho para a inclusão do CPB na Lei 10.264, a Lei Agnelo Piva, de 2001, que destinou 2% (atualmente 2,7%) dos recursos das loterias federais para o financiamento do esporte, com 15% desse percentual direcionados ao paradesporto.

O ápice dessa evolução é o Centro de Treinamento Paralímpico, inaugurado em 2016 como um dos principais legados dos Jogos do Rio de Janeiro. A estrutura não só impulsionou os resultados do Brasil em Paralimpíadas, mas também se tornou um polo de formação de novos atletas, oferecendo iniciação gratuita em modalidades adaptadas para jovens de 7 a 17 anos com diversas deficiências. Para mais informações sobre o paradesporto brasileiro, visite o site do Comitê Paralímpico Brasileiro.

A luta de Robson Sampaio de Almeida e de outros pioneiros, como Luiz Carlos da Costa, transcendeu as pistas e quadras. “Ele [Robson] lutava para as empresas admitirem [pessoas com deficiência], que tivessem uma política de acreditar que aquela pessoa era capaz de trabalhar. A gente teve nele o exemplo desse espírito, e o esporte foi a consequência. O que estamos comemorando é a realização de um sonho. A luta dele é a de todos nós”, concluiu Noêmia Almeida. A celebração de hoje é um lembrete poderoso de que o esporte paralímpico brasileiro é construído sobre os ombros de gigantes, cujo legado de otimismo, resiliência e inclusão continua a inspirar.

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