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Descoberta na Amazônia: gafanhotos ganham nomes inspirados em toadas do Boi Garantido

Descoberta na Amazônia: gafanhotos ganham nomes inspirados em toadas do Boi Garantido
Larissa Lima de Queiroz

A Amazônia, um dos maiores celeiros de biodiversidade do planeta, continua a surpreender a comunidade científica com suas riquezas inexploradas. Recentemente, um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em colaboração com o Museu Nacional (MNRJ), revelou a existência de nove novas espécies de gafanhotos e quatro novos gêneros. O que torna essa descoberta ainda mais singular é a forma como duas dessas espécies foram batizadas: em uma homenagem vibrante às toadas do Boi-Bumbá Garantido, um dos pilares do Festival Folclórico de Parintins. A pesquisa, publicada em 24 de julho na renomada revista internacional Zootaxa, destaca não apenas a vasta diversidade da fauna amazônica, mas também a profunda conexão entre a ciência e a rica cultura da região.

A ponte entre ciência e folclore amazônico

A escolha dos nomes ‘Kamara’ e ‘Mãe da Mata’ para as novas espécies de gafanhotos transcende a mera nomenclatura científica. Ela representa um elo simbólico entre o rigor da pesquisa biológica e a exuberância do folclore amazônico. A pesquisadora amazonense Larissa Lima de Queiroz, uma das mentes por trás do estudo, expressou que sua motivação foi aproximar esses dois universos, valorizando os povos originários e as tradições que moldam a identidade da Amazônia. Sendo a única pesquisadora da região dedicada ao estudo de gafanhotos no Brasil e uma entusiasta do Boi Garantido desde a infância, Larissa buscou eternizar parte da cultura local na ciência, utilizando suas toadas favoritas como inspiração. Essa iniciativa ressalta a importância de reconhecer e celebrar a herança cultural em contextos científicos, especialmente em regiões com tamanha riqueza cultural e ambiental como a Amazônia.

Kamara e Caacy: Nomes que contam histórias

Entre as nove espécies recém-identificadas, duas se destacam por suas origens culturais. A espécie Kamara kratxatxa, cujo nome significa “gafanhoto-onça”, foi inspirada na toada ‘Kamara’, lançada pelo Boi-Bumbá Garantido em 2026. A construção desse nome contou com a valiosa colaboração de João Kamarayano, da etnia Hixkaryana, garantindo que elementos da língua e da cultura indígena fossem incorporados à designação científica. Essa parceria sublinha o respeito e a valorização do conhecimento ancestral na pesquisa contemporânea.

Já a espécie Proscopia caacy teve sua inspiração na toada ‘Mãe da Mata’, apresentada pelo Garantido em 2011. A palavra “Caacy”, de origem tupi-guarani, traduz-se como “mãe da floresta”, um tributo poético à natureza e à figura materna que a Amazônia representa. Essas escolhas não apenas dão identidade às novas espécies, mas também as enraízam profundamente no imaginário e na cosmogonia dos povos que habitam a floresta.

A jornada da descoberta e a riqueza da biodiversidade amazônica

A pesquisa que culminou na identificação dessas novas espécies teve início em 2019, durante o doutorado de Larissa Lima de Queiroz. No entanto, o trabalho de campo, essencial para a coleta de espécimes, só pôde ser iniciado em 2022, após a vacinação contra a Covid-19. Além das expedições desafiadoras, a equipe de pesquisadores, que incluiu José Albertino Rafael e Raphael Aquino Heleodoro, dedicou-se à análise minuciosa de exemplares preservados em coleções de museus tanto no Brasil quanto no exterior.

Um exemplo notável dessa persistência é o caso dos gafanhotos de Proscopia caacy, que haviam sido coletados em 1984, mas somente agora, décadas depois, foram reconhecidos e descritos como uma espécie completamente nova. Esse fato ilustra a importância contínua dos acervos de museus para a ciência e a necessidade de revisitar e reavaliar coleções antigas.

A busca por esses insetos não é uma tarefa simples. Um dos grupos de gafanhotos, por exemplo, recebeu o nome de Celatus, que em latim significa “escondido”, uma referência à dificuldade de encontrá-los. A equipe levou cerca de cinco meses para localizar o primeiro macho da espécie Celatus nath na região de Presidente Figueiredo, no Amazonas. Outra descoberta notável foi a Milenascopia uatuma, encontrada na Reserva Biológica do Uatumã, onde a coleta exigiu o uso de uma lancha para alcançar gafanhotos em árvores parcialmente submersas em uma área de várzea, demonstrando a adaptabilidade dos pesquisadores aos desafios do terreno amazônico.

O vasto desconhecido da Amazônia e o futuro da pesquisa

Das nove novas espécies identificadas, oito foram registradas especificamente na Amazônia brasileira, consolidando a região como um hotspot de biodiversidade ainda pouco compreendido. As localidades de descoberta abrangem diversos estados:

  • Celatus nath – Presidente Figueiredo, Amazonas;
  • Kamara kratxatxa – Rio Branco, Acre;
  • Lianascopia albae – Tiquié, Amazonas;
  • Lianascopia domenicoi – Amajari, Roraima;
  • Milenascopia uatuma – Presidente Figueiredo, Amazonas;
  • Proscopia caacy – Serra Norte, Pará;
  • Pseudoproscopia taka – Itaituba, Pará;
  • Pseudoproscopia trajakan – Manicoré, Amazonas.

Além das espécies, o estudo também descreveu quatro novos gêneros, um avanço ainda mais significativo para a ciência. O gênero Kamara, por exemplo, já agrupa três espécies. A descoberta de um novo gênero indica que não apenas espécies individuais, mas grupos inteiros de organismos eram desconhecidos pela ciência, evidenciando a imensidão do que ainda precisa ser explorado e catalogado na Amazônia.

Larissa Lima de Queiroz expressou a esperança de que este estudo inspire uma maior valorização tanto da fauna quanto da cultura amazônica. “Eu gostaria que o nosso país conhecesse melhor os animais fantásticos que existem na nossa floresta e entendesse que o Norte é forte, rico em diversidade e cultura”, afirmou a pesquisadora. Essa pesquisa não é apenas um marco científico, mas um convite à reflexão sobre a importância de preservar e celebrar a singularidade da Amazônia, um patrimônio que agora tem sua cultura eternizada até mesmo nos nomes de seus pequenos habitantes.

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Fonte: g1.globo.com

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